3 empreendedoras que mostram como a moda pode se alinhar a sustentabilidade

Yahoo Especial Empreendedoras - Moda e Beleza. Arte: Welker Maciel.

Yahoo Especial Empreendedoras – Moda e Beleza. Arte: Welker Maciel.

  • Day Molina é neta de uma mulher indígena nordestina que criou dez filhas por meio da costura;

  • Jéssica Romero costurava desde criança e sempre procurou formas de criar suas possibilidades autônomas na moda;

  • Lidi Oliveira cresceu debaixo das mesas de corte de sua mãe, que era costureira.

A indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo. O problema vai desde a emissão de gases de efeito estufa, passa por violações de direitos humanos na cadeia produtiva e ainda culmina na geração de toneladas de resíduos têxteis. Mesmo assim, Day Molina, Jesse Romero e Lidi de Oliveira acreditam que é possível fazer diferente. E fazem.

As empreendedoras criaram seus negócios baseados em uma moda responsável, empática e atenta às questões socioambientais do Brasil e do mundo. Conheça cada um deles:

Day Molina

Day Molina, criadora do NALIMO. Foto: Reprodução / Instagram

Day Molina, criadora do NALIMO. Foto: Reprodução / Instagram

Nascida e criada em Niterói, Rio de Janeiro, Day Molina é neta de uma mulher indígena nordestina que criou dez filhas por meio da costura. Desde cedo a estilista manifestou o interesse para as atividades manuais, mas quando entrou em “conflito existencial com o capitalismo” e militava no movimento estudantil, resolveu cursar ciências sociais. À época, precisava trabalhar para se manter e foi parar, por acaso, em um ateliê de figurinos. Ali, resgatou seu apreço pela costura e criação.

Deixou a respectiva graduação e foi buscar formas de cursar moda, mas as universidades, em 2005, já eram inacessíveis, seja do ponto de vista financeiro ou territorial. Conseguiu uma bolsa, com um fotógrafo do segmento, para estudar na Argentina. Ficou nove meses no país vizinho e voltou decidida a continuar na área, onde permaneceu por 14 anos, até começar a empreender com a NALIMO nos últimos cinco.

A NALIMO é uma marca de roupas online e também a possibilidade de Day ressignificar tudo aquilo que não acreditava na indústria. “Eu olhava para o mercado sem esperança, de não se enxergar, de ser sempre o 1%, porque não haviam mulheres indígenas nesse lugar, meus clientes nunca queriam uma mulher indigena em suas campanhas e editoriais”, relembra ela. “Criar a NALIMO foi um ressignificar pra mim, enquanto mulher indigena, e é um lugar de autonomia. Aqui decido o que vou fazer, o que faz sentido para mim e para outras mulheres que nunca se viram nesse lugar, é a chance que a gente tem de trazer esses corpos e narrativas”, continua.

Atualmente, a estilista mantém o ateliê em Niterói e foca nas vendas digitais. Sua equipe é só de mulheres, a maioria indígenas ou negras, e seu orgulho é manter uma relação amorosa e respeitosa entre todas. Para ela, essa é uma das principais diferenças do pequeno empreendedor para o grande empresário: o primeiro “está no dia a dia da empresa cuidando de cada etapa, não é só pegar e demandar, eu sento, converso, ensino, capacito. A troca é muito genuína, o erro nunca é um problema. É tudo que eu sonhei e não tive”.

Day acredita que a sensibilidade e empatia com as causas indígenas tem aumentado, assim como a busca por uma moda ética. A percepção pode ser embasada em pesquisas recentes, como a do Instituto Modefica em parceria com Fundação Getúlio Vargas (FVG) e Regenerate Fashion, que mapeou que 97% das pessoas acreditam que a moda e vestuário estão relacionadas às alterações climáticas e que têm impactos sobre o meio ambiente. Fomentar essa consciência é, também, um dos objetivos da estilista. “Coloquei a NALIMO na disputa de mercado, não só de consumo, mas no campo da ideia, onde eu disputo uma séria de questões que vão além de comprar ou não uma roupa. Tem uma ação ativista na moda das pessoas refletirem”, explica.

A estilista já participou de eventos importantes da cena, como o Brasil Eco Fashion Week e a Casa de Criadores. Para o último, ela prepara uma nova coleção a ser apresentada ainda neste semestre. Como dica para quem quer empreender unindo moda e sustentabilidade, ela aconselha a criação de um negócio “que possa verdadeiramente cooperar para solucionar os problemas do mundo e não piorá-los. Empreender por empreender não faz sentido”, completa.

Jéssica Romero

Jéssica Romero é criado do Twins As Cariocas. Foto: Reprodução /Instagram.

Jéssica Romero é criado do Twins As Cariocas. Foto: Reprodução /Instagram.

Jéssica Romero costurava desde criança e sempre procurou formas de criar suas possibilidades autônomas na moda. Na adolescência, fazia as próprias roupas com os retalhos que eram vendidos nas lojas de tecidos em Joinville, Santa Catarina, cidade onde a carioca morou por mais de dez anos com parte de sua família. Ao sair do ensino médio, não teve dúvidas de que queria cursar moda. O problema era a possibilidade financeira de arcar com a graduação, mas ela conseguiu uma bolsa de estudos para dar andamento no sonho. Dentro da faculdade, pensou em desistir inúmeras vezes, dado o descompasso social com os colegas e o racismo. Mesmo assim, concluiu a formação e no projeto de TCC buscou resgatar sua ancestralidade e personificar isso na criação de suas peças de vestuário e bolsas.

Foi o contato inicial da empreendedora com os acessórios. Ela viu em brincos, colares e pulseiras uma possibilidade de criar com o que já tinha. “Muitas vezes olhava para diversos materiais que seriam descartados e pensava que eles poderiam ser alguma coisa”, conta Jéssica, que em 2015 começou os primeiros passos da atual Twins As Cariocas, marca que trabalha com o upcycling a partir de materiais como madeira, conchas e resíduos têxteis. Os últimos, inclusive, são um grande problema do setor: um caminhão de lixo têxtil é produzido no mundo por segundo no mundo e só no Brasil, 170 mil toneladas são geradas anualmente, mas apenas 20% é reutilizada.

Esse tipo de informação, acerca dos impactos nocivos da moda, não foram ensinados em sala de aula, segundo Jéssica, mas a empreendedora sabia que era possível incluir valores de reutilização e sustentabilidade em sua marca. À época, em 2015, ela ainda trabalhava como vendedora em lojas de roupas da cidade catarinense. A Twins foi, dia após dia, tomando corpo e ganhando espaço na sua vida. Chegou a ter dois amigos como sócios, até que, em 2019, a saudade do Rio de Janeiro era grande demais para ficar oculta, ela voltou a morar na capital, e resolveu se dedicar integralmente ao empreendimento.

Ao longo do processo, Jéssica também foi se conectando com os acessórios e descobriu que tem a aptidão para fazê-los. “A marca é um organismo vivo, igual a mim”, explica a empreendedora, que já realizou encomendas de peças até para países como França e Bélgica. Atualmente, ela gere sozinha tudo: confecciona, administra, divulga. As vendas são online ou em feiras que participa – em especial a Feira da Glória, no bairro homônimo. Seu apontamento, contudo, é que muitos eventos são inacessíveis para pequenos produtores. “Alguns cobram mais de trezentos reais para um dia de exposição, é desestimulante para quem é pequeno”, desabafa.

Se hoje Jéssica consegue se manter só com a Twins As Cariocas, é porque antes teve que abrir mão de empregos formais que não se identificava e seguir seu chamado. “Eu ouvi por muito tempo ‘como você vai se sustentar vendendo brinco, fazendo miçanga?’, mas sempre alguma coisa me dizia ‘vai’. A maioria das vezes estou produzindo, estou usando minhas guias. Tenho para mim que sou guiada para fazer as coisas que faço”, finaliza.

Lidi de Oliveira

Lidi criou o Lab Arremate, um laboratório social e experimental de costura periférica. Foto: Reprodução / Instagram

Lidi criou o Lab Arremate, um laboratório social e experimental de costura periférica. Foto: Reprodução / Instagram

Lidi Oliveira cresceu debaixo das mesas de corte de sua mãe, que era costureira. A matriarca faz parte da história da família de mulheres que vieram do sertão nordestino direto para o Parque Paulista, em Duque de Caxias (RJ). “Cresci falando que nunca ia tocar numa máquina de costura”, relembra ela, por ver como suas parentes podiam ser exploradas pela indústria. Contudo, uma chave de visão mudou quando a empreendedora começou a integrar movimentos socioculturais. “Passei a enxergar um lugar de resistência, e a partir disso também desenvolvo o que chamo de pedagogia de fundo de quintal: práticas de saberes feito por mulheres da baixada fluminense por meio da costura”, explica ela, que é graduada em ciências sociais.

Esse foi um dos impulsos para Lidi criar, em 2018, o Lab Arremate, um laboratório social e experimental de costura periférica. O projeto oferece aulas para a comunidade, além de outras formações, conversas, feiras e acolhimento, estabelecendo uma forte parceria com ativistas e movimentos sociais do entorno. Além disso, com o falecimento da mãe da empreendedora em decorrência de Covid-19 no ano passado, o objetivo é tornar seu antigo ateliê de trabalho uma escola de costura da Lab, em homenagem a ela.

As mulheres que integram o projeto são, em maioria, costureiras em tempo integral. Isso não é ao acaso, já que mais de 75% da cadeia produtiva da moda nacional é feminina. São elas que produzem grande parte das peças que vestem o Brasil inteiro. Para Lidi, olhar o empreendedorismo dessas profissionais na comunidade é uma forma de exercitar a pedagogia de fundo de quintal, que instiga não só a autonomia financeira por meio de um negócio próprio, mas também resgata a autoestima de reconhecer a importância do ofício.

Entretanto, muitos ainda são os desafios. Ela diz que falta um olhar mais ampliado sobre o que significa ser mulher e empreender. “Pensar em empreendedorismo entre mulheres é pensar em serviços públicos, mobilidade urbana, segurança pública, creches”, pontua. Mesmo assim, Lidi celebra que esse lugar de construção seja “coletivo, e não solitário”.

O Lab é um espaço de capacitação, que permite o desenvolvimento socioeconômico e cultural da região ao seu entorno, mas não só. É um ponto de inflexão no mundo da moda, marcado pelo afastamento das pessoas com os processos produtivos. A empreendedora compartilha que “o mais bacana das aulas [no Lab] é que as pessoas criam outra consciência. Elas refletem sobre o preço, o tempo, a roupa, de indagar como foi produzida e visibilizar histórias”.

Como chamado, ela convida todos que querem iniciar um negócio na moda a se perguntar: “como podemos deixar esse mundo um pouco melhor por meio dos tecidos?”, e ainda sinaliza que as portas do Lab Arremate estão sempre abertas para quem quiser construir a escola de moda periférica do projeto e responder ativamente à pergunta enunciada.