Justiça nega novo júri e mantém absolvições de quatro acusados de matar ex-jogador do São Paulo

Quatro acusados de participação na morte do jogador Daniel Corrêa Freitas, em São José dos Pinhais (PR), tiveram as absolvições em júri popular mantidas pelos desembargadores da 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) nesta quinta-feira, 11. Eles negaram um pedido do Ministério Público do Estado pela anulação da decisão dos jurados e pela realização de um novo julgamento para os acusados.

O relator do caso, o desembargador Mauro Bley Pereira Junior, foi vencido pelo restante da turma em relação ao pedido do Ministério Público. A maioria dos magistrados acompanhou o voto em separado do desembargador Sergio Luiz Patitucci, que negou o pedido da promotoria e manteve as absolvições. Também foram analisados recursos das defesas dos condenados.

O crime aconteceu em 27 de outubro de 2018, na região metropolitana de Curitiba. O corpo do jogador foi encontrado parcialmente degolado e com o órgão genital cortado, em uma estrada rural. À época, Daniel era jogador do São Bento, de Sorocaba (SP). O meia, que tinha 24 anos, fez a base no Cruzeiro e passou por clubes como São Paulo, Coritiba e Botafogo.

O empresário Edison Luiz Brittes Júnior foi condenado a 42 anos, cinco meses e 25 dias de prisão em regime fechado pelo crime. A pena foi mantida pelo Tribunal de Justiça. Ele está preso desde novembro de 2018. A ex-mulher dele, Cristiana Rodrigues Brittes, e os acusados de participação na morte do jogador, David Willian Vollero Silva, Ygor King e Eduardo Henrique Ribeiro da Silva, foram absolvidos. No júri, em março de 2024, Cristiana tinha sido condenada pelos crimes de fraude processual e corrupção de menores.

Allana Emilly Brittes, filha de Edison e Cristiana, que eram um casal à época do crime, teve o reconhecimento pelos desembargadores da 1ª Câmara da prescrição dos crimes de fraude processual, corrupção de menores e coação no curso do processo, pelos quais havia sido condenada. Diferente dos pais, ela não chegou a ser acusada de participação na morte do jogador.

Daniel tinha 24 anos quando foi morto, em 2018; corpo do jogador foi encontrado parcialmente degolado e com o órgão genital cortado Foto: Reprodução/Twitter

Procurado pelo Estadão, o Ministério Público do Paraná informou que o promotor responsável pelo caso ainda não se manifestou sobre a decisão do TJ-PR. A reportagem tenta contato com as defesas dos absolvidos, Cristiana, David, Ygor e Eduardo.

Em nota, a defesa de Edison Brittes e Allana, comandada pela advogada Caroline Mattar Assad, informou que a jovem “não responde mais ao processo criminal e tampouco ostentará antecedentes”. Em relação ao pedido de redução de pena de Edison, a advogada afirmou que irá recorrer às cortes superiores “pleiteando a correta aplicação das normas penais, buscando uma dosimetria proporcional e adequada ao caso concreto”.

Relembre como foi o crime

Antes da morte, o atleta havia participado da festa de aniversário de 18 anos de Allana Brittes, em uma boate de Curitiba. No local, o jogador foi convidado para continuar a comemoração na casa da família, em São José dos Pinhais. Segundo a investigação, Daniel foi espancado ainda na casa da família depois que Edison o encontrou na cama ao lado da mulher dele, Cristiana.

O jogador enviou fotos da mulher em um grupo de amigos pelo WhatsApp. Edison alegou que Daniel tentou estuprar Cristiana, porém a investigação da Polícia Civil concluiu que não houve tentativa de estupro.

Além de Edison, outros três amigos da filha que estavam na festa foram investigados por participação nas agressões e na ocultação do cadáver. Depois de espancar o jogador, Edison teria degolado e cortado o órgão genital da vítima e deixado o corpo em uma estrada rural da Colônia Mergulhão, em São José dos Pinhais.

Cinco anos depois, em interrogatório no Tribunal do Júri, que durou cerca de 1h15, o condenado afirmou que agiu sozinho depois de ter tirado a vítima da casa e o levado para a zona rural. “Eu arrastei ele (Daniel), tirando da estrada. Na hora que eu desci do carro eu não vi nada. Meu foco era o abusador. Não sei se os meninos desceram do carro na hora. Eu fiz isso sozinho”, afirmou.

Edison relatou também que estava transtornado quando cometeu o crime. Ele alegou ter visto o atleta com o pênis para fora da roupa na cama, ao lado da mulher.

“Eu estava muito transtornado, pensava nas mensagens, remoía tudo dentro de mim. Eu me lembrava dele falando que comeu ela. Sim, eu peguei e emasculei ele. Fui na direção do carro e joguei a parte dele. Quando eu joguei o órgão dele eu vi que um dos meninos estava na frente do carro vomitando. Era o meu genro David”, afirmou.

O júri popular do caso durou cerca de 35 horas, no decorrer de três dias. Foram ouvidas 13 testemunhas, sendo duas sigilosas, houve o interrogatório dos sete réus do caso, além dos debates entre acusação e defesa. Os réus estavam presentes no momento da leitura da sentença pelo juiz. A mãe e familiares da vítima também participaram do julgamento.