Milícia cresce 387% no Rio de Janeiro

As milícias cresceram em 387% acentuado o domínio de territórios no Rio de Janeiro (RJ), nos últimos 16 anos. É o que mostra o estudo do Instituto Fogo Cruzado, em parceria com o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismosda Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF). Os dados foram divulgados em 13 de setembro de 2022. A íntegra.  

Segundo os pesquisadores, dentre as áreas dominadas por algum grupo armado em RJ, metade está nas mãos das milícias (49,9%). Milícia é um poder paralelo, que não integra as forças armadas ou de polícia de um país. Geralmente as milícia são lideradas por policiais de maneira escusa ou de ex-agentes de forças policiais. Até 2008, milicianos ocupavam 23,7% das áreas do RJ. Essa reportagem em vídeo mostram como esse grupo age geralmente com o conhecimento das forças de segurança do estado:  

Entre o primeiro (2006-2008) e o último triênio (2019-2021) da série histórica que compõe o Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro, as milícias apresentaram um crescimento de 387,3% nas áreas sob seu controle (de 52,60Km² para 256,28Km²). Isso quer dizer que, atualmente, 10,0% de toda a área territorial do Rio de Janeiro está sob domínio das milícias.

Além do crescimento da milícia, foi observado também o crescimento das áreas da região metropolitana sob o controle de algum grupo armado. Ao todo, de 2.565,98 km² de área urbana habitada da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (retiradas a cobertura vegetal, áreas rurais e bacias hidrográficas), 8,7% estavam sob o controle armado entre 2006-2008. Atualmente, mais do que o dobro (crescimento de 131,2%) de área está sob o domínio de algum grupo armado: 20,0% (totalizando 513,86km²).

Os dados do Mapa dos Grupos Armados não deixam dúvidas: as milícias são as principais responsáveis por esse aumento de áreas sob domínio de grupos armados, razão pela qual se tornaram a principal ameaça à segurança pública no RJ. A análise da série histórica permite constatar que a maior parte da expansão das milícias ocorreu por incorporação de áreas onde antes não havia controle territorial algum – e não por meio da conquista de espaços controlados por outros grupos.

Por isso, mesmo com um crescimento de 58,8% das áreas sob o domínio do Comando Vermelho constatado no período (de 130,26Km² para 206,83Km²) e de 41,7% da população (de 1.441.164 hab para 2.042.780hab), houve uma redução de 31,2% na participação da facção sobre o total das áreas controladas (de 58,6% para 40,3%) e 14,2% da população (de 53,9% para 46,2%). 

O Terceiro Comando Puro, por sua vez, também aumentou sua área de domínio em 110,8% (de 19,70Km² para 41,53Km²) e populacional em 70,3% (de 315.633hab. para 536.683hab), mas teve sua participação total em áreas dominadas reduzida para 8,9% e em populações sob seu controle em 2,5% (de 11,8% para 12,1%). Já a ADA, diminuiu em 65,1% sua área de controle (de 16,13Km² para 5,63Km²) e hoje domina 1,1% dos espaços dominados da Região Metropolitana. Ou seja: apenas a milícia expandiu o domínio territorial e viu sua participação no total de áreas dominadas por grupos armados crescer, o que demonstra o seu potencial de crescimento mais acelerado que os demais grupos. Hoje, a fatia da Região Metropolitana dominada por esse grupos divide-se, da seguinte maneira: 49,9% está sob domínio das milícias; 40,3%, sob o Comando Vermelho; 8,9% com o Terceiro Comando Puro e 1,1% com a ADA.

Entre 2006 e 2021, o Terceiro Comando Puro (TCP) incorporou aos seus domínios 18,45Km², enquanto o Comando Vermelho e os Amigos Dos Amigos, somados, diminuíram em 13,36km² o seu domínio territorial. Isto significa que, mesmo se todas as áreas perdidas pelo ADA e o CV tivessem sido conquistadas pelas milícias, elas representariam apenas 9,7% do aumento territorial observado. Portanto, ao menos 90,3% deste crescimento das milícias se fez em novas áreas, onde antes não havia controle de nenhuma facção. 

A movimentação dos grupos armados ao longo de 16 anos é resultado de inúmeros eventos e fatores. Trata-se de um fenômeno complexo que, do nível local ao macro, é influenciado por variados aspectos da dinâmica social fluminense e nacional. Mas ao observar a linha do tempo composta pelo mapa, alguns episódios merecem destaque com relação aos seus impactos, positivos ou negativos: a CPI das milícias (2008), à presença das Unidades de Polícia Pacificadora (2008-2016), a crise socioeconômica, política e fiscal no estado (2014-2017) e crise da gestão da segurança pública no Rio de Janeiro (2016-2019) que levou ao fim da SESEG e a consequente autonomia das polícias civil e militar (2019).

DIVISÃO POR REGIÃO

A Baixada Fluminense concentra a maior fatia das conquistas pelo Comando Vermelho. Ao todo, 63,1% dos 89.38 km² de expansão total do CV foram conquistados na Baixada entre os triênios de 2006-2008 e 2014-2016, e 402.815 hab. (53%) dos 759.244 hab.. É também onde o Terceiro Comando Puro tem apresentado maior crescimento territorial: 16,22 km² dos 20,99 km² de aumento territorial do grupo entre 2015-2017 até 2019-2021. Em termos populacionais, no mesmo período, o Terceiro Comando Puro ampliou seu controle populacional em 233.305 hab na RMRJ, dos quais, 98.431 (42,1%) estavam na Baixada Fluminense. Em 2021, a área da Baixada Fluminense dominada por esses grupos se divide em: 39.7% sob domínio do Comando Vermelho; 48.6%, sob as milícias; 10.9% com o Terceiro Comando Puro. 

Ao contrário da Baixada, o Leste Metropolitano, formado por municípios como Niterói e São Gonçalo, apresenta uma clara hegemonia de uma única facção. Ao longo de todo o período, o Comando Vermelho é prevalente. No início da série histórica, o CV dominava uma área 3 vezes maior do que os demais grupos somados. Essa diferença aumentou e atualmente o domínio do CV é 7 vezes maior no Leste Metropolitano do que a soma de todos os outros grupos. O Leste Metropolitano, no que diz respeito às áreas dominadas, está assim dividido entre os grupos armados: 88.2% dominado pelo CV; 9.1%, está sob as milícias; 2.6% com o Terceiro Comando Puro. 

Na Capital, a evolução dos domínios dos diferentes grupos armados difere da observada na Baixada (disputa) e no Leste (hegemonia do CV). Na Capital, as milícias assumiram a primeira posição como maior grupo armado e nunca mais deixaram de ser hegemônicos. As milícias controlam 74,2% das áreas ocupadas por grupos armados na capital. 29,8% da cidade do Rio de Janeiro hoje é dominada por algum grupo armado. 3 em cada 4 áreas controladas por criminosos no município está sob o domínio da milícia. 

A hegemonia das milícias na capital concentra-se quase que exclusivamente na Zona Oeste da cidade, conhecido reduto das milícias em sua configuração atual. A Zona Norte aparece em segundo lugar em importância para as milícias na capital, e é também a sub-região onde, em quase toda a série histórica, as milícias aparecem como a segunda força com mais espaços dominados. Por sua vez, na Zona Sul e no Centro, as áreas dominadas são muito pouco expressivas e tendem a zero.

O MAPA

Há mais de quatro décadas, amplos espaços da Região Metropolitana do Rio de Janeiro estão sob o domínio de grupos armados. Seria esperado que as autoridades elaborassem um mapa mostrando quais são os grupos armados que dominam enormes espaços do estado e onde eles atuam. Essa informação é fundamental para o planejamento de ações de combate à expansão da violência urbana e para o desenvolvimento de uma política de segurança pública eficiente. Mas esse mapa nunca foi produzido pelas autoridades e este é mais um sinal do vazio de informações qualificadas que caracterizam a longa tradição da gestão pública no estado. Ou seja, explicam o porquê e como chegamos a esta situação. 

É nesse contexto em que se insere a parceria entre o GENI e o Fogo Cruzado para a produção do Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio de Janeiro. 

Para este levantamento, foram analisadas mais de 689.933 mil denúncias coletadas através do portal do Disque Denúncia que mencionavam milícias ou tráfico de drogas entre 2006 e 2021, que permitiram traçar o movimento histórico de domínio de facções e milícias, sobre mais de 13.308 sub-bairros, favelas e conjuntos habitacionais da região metropolitana do Rio de Janeiro.

SOBRE O FOGO CRUZADO

O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida. 

Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 20 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife e de Salvador.

Através de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto.

SOBRE O GRUPO DE ESTUDOS DOS NOVOS ILEGALISMOS

O Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI-UFF) é um grupo de pesquisa registrado no diretório de grupos de pesquisa do CNPq e especializado em temas associados às diferentes formas de violências e os conflitos sociais. O GENI-UFF se beneficia de estar sediado na Universidade Federal Fluminense, cuja centralidade na formação de recursos humanos é reconhecida em nível nacional e internacional. Neste espaço tão rico de formação e pesquisa na área, o GENI-UFF vem desenvolvendo projetos de pesquisa que envolvem discentes e docentes provenientes dessa rede institucional da UFF. Também é fundamental para o GENI-UFF a participação em redes interinstitucionais com outros grupos de pesquisa sediados em diferentes universidades brasileiras.