
O vendedor Renato Nakamura, de 49 anos, convive com a diabetes desde os 30 anos, mas nos últimos meses vem enfrentando uma peregrinação atrás dos insumos básicos e necessários para o tratamento da doença, que não encontra na rede pública de saúde de Campo Grande.
Renato realiza aplicações de insulina várias vezes ao dia, mas há cerca de três meses não consegue mais retirar as fitas de medição de glicose e seringas por meio do SUS (Sistema Único de Saúde). Segundo ele, os materiais costumavam ser fornecidos nos postos de saúde, mas atualmente estariam em falta em toda a rede. “Já fui a todos os postos, no CEM (Centro de Especialidades Médicas) também, e não tem. Falta fita para medir a diabetes e seringa em toda Campo Grande, não é um posto só”, relata.
As fitas de aferir glicose, também conhecidas como tiras reagentes, são descartáveis e usadas com um glicosímetro para monitorar os níveis de açúcar no sangue, essenciais para o manejo do diabetes. Elas funcionam com uma pequena amostra de sangue, geralmente obtida por punção capilar no dedo, apresentando resultados rápidos.
A situação preocupa porque, sem o medidor de glicose, Renato diz que não tem como saber se o açúcar no sangue está alto ou baixo. “A gente simplesmente não sabe. Pode estar em hiperglicemia e morrer de repente. É complicado”, desabafa.
Ele explica que o controle diário é essencial para evitar crises. Se a glicose estiver muito baixa, ocorre a hipoglicemia, que pode causar tontura, fraqueza, desmaios e até morte em casos graves. Já quando está alta, o excesso de açúcar no sangue sobrecarrega o organismo e pode comprometer rins, coração, visão e cérebro.
Medição virou luxo
Sem acesso aos insumos pelo SUS, Renato tenta se virar comprando por conta própria, mas cada caixa com 50 fitas custa cerca de R$ 100, e ele precisa medir a glicose pelo menos quatro vezes ao dia.
“Só tenho uma caixa guardada de recordação. Para manter o controle, eu gastaria uns R$ 300 por mês só com fita, fora seringa”, conta. Ele também afirma que os preços aumentaram nas farmácias. “Agora estão caras, por conta do pessoal que toma Mounjaro”, acredita.
Renato reforça que medir a glicose não é opcional. “A fita é uma das partes principais, porque sem saber como está o açúcar no sangue, é impossível aplicar a insulina na dosagem correta”, explica.
O paciente afirma que não recebeu explicações claras sobre a falta dos insumos e acredita que o problema esteja ligado a processos administrativos e licitações. “Eles cortam o fornecimento, fazem novo orçamento, mudam empresa… aparece um tempo e depois some de novo”, diz.
A revolta aumenta ao comparar com outros gastos públicos. “Agora, para gastar milhões em radar, isso tem dinheiro na prefeitura”, critica.
Enquanto aguarda uma solução, Renato vive na incerteza. “Sem a fita não temos ideia de como estão as coisas. Pode estar alto demais ou muito baixo. Controlar é prevenir. Medir é proteger a vida”, conclui.
A reportagem procurou a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) para comentar a falta de insumos, mas não houve retorno até o fechamento. O espaço segue aberto para manifestação.





























