Liderança Kaiowá é morta a tiro durante ataque em retomada indígena em Iguatemi

Uma madrugada de violência marcou novamente a Terra Indígena Iguatemipeguá I, em Iguatemi, região sul de MS. Vicente Fernandes, 36 anos, uma das lideranças do povo Kaiowá e Guarani, foi assassinado com um disparo na nuca durante um confronto contra um grupo estimado em 20 pistoleiros. O ataque ocorreu na área de retomada de Pyelito Kue, alvo de sucessivas ofensivas armadas nos últimos meses.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) informou que pelo menos outras três pessoas ficaram feridas, entre elas dois adolescentes, atingidos por tiros no abdômen e nos braços. O Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania comunicou ao Cimi que equipes da Força Nacional de Segurança Pública já se encontram na região. Moradores relataram, porém, que os agentes precisaram acessar a área por dentro de uma fazenda, indicando que os pistoleiros teriam bloqueado pontes e rotas usadas pelos indígenas.

Segundo relatos feitos durante o ataque, a comunidade foi cercada e alvo de disparos contínuos. Uma mulher Kaiowá e Guarani, cuja identidade foi preservada, descreveu a tensão vivida pela aldeia. “Eles tomaram a ponte e fecharam o caminho. Estamos cercados. Continuam atirando, inclusive nas casas. Não temos como nos defender.”

O conflito ocorre em meio a uma disputa territorial antiga. Em outubro, os Kaiowá e Guarani retomaram parte da Fazenda Cachoeira, área sobreposta à TI Iguatemipeguá e vizinha de Pyelito Kue. A comunidade ocupa regularmente cerca de 100 hectares da Fazenda Cambará desde 2015, território também dentro dos 41,5 mil hectares delimitados oficialmente em 2013. Segundo os indígenas, a ação deste domingo foi conduzida pelos mesmos pistoleiros envolvidos no ataque registrado no início do mês.

A ofensiva armada aconteceu menos de 24 horas após a publicação da portaria que criou um Grupo de Trabalho Técnico interministerial para avançar, nos próximos 180 dias, nos processos de demarcação no Cone Sul de Mato Grosso do Sul — região marcada por conflitos históricos entre agricultores, grupos armados e comunidades originárias.

Nota do Ministério dos Povos Indígenas

O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) lamentou profundamente a morte de Vicente Fernandes e classificou o caso como mais um episódio da escalada de violência contra povos tradicionais do MS. Segundo o comunicado, equipes do Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Fundiários Indígenas e da Funai já acompanham a situação e acionaram autoridades de segurança pública.

Para o MPI, a morte da liderança evidencia a vulnerabilidade enfrentada pelos defensores do território, justamente no momento em que o mundo discute o papel crucial dos povos indígenas na proteção ambiental durante a COP30. A pasta prestou solidariedade à família e à comunidade Kaiowá e Guarani.

Nota da Sejusp

A Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul informou que forças estaduais deram apoio às equipes federais na ocorrência, que também resultou na morte de um funcionário de fazenda. Outras duas pessoas permanecem hospitalizadas.

Um indígena apontado como suspeito de integrar o confronto, e que também ficou ferido, foi detido pela Polícia Militar e entregue à Polícia Federal. A Sejusp ainda esclareceu que, por determinação judicial, a PM estava impedida de realizar policiamento ostensivo na área da retomada.

As investigações continuam sob responsabilidade da PF e de órgãos federais, enquanto a comunidade indígena permanece em estado de alerta após mais um episódio de violência na região.