
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul instaurou um inquérito civil para investigar a qualidade da assistência obstétrica na Maternidade Cândido Mariano, em Campo Grande. A apuração, que envolve a unidade responsável por cerca de 60% dos partos no município, foi motivada por denúncias de negligência médica e violência obstétrica após a morte de um bebê durante o parto, ocorrida em outubro de 2025.
O caso que deu origem à investigação aconteceu após uma gestante dar entrada na unidade em 15 de outubro de 2025, por volta das 11h. De acordo com o boletim de ocorrência, os batimentos cardíacos do bebê estavam normais no início da tarde. A paciente foi levada à sala de procedimento às 17h30, mas o parto teve início apenas às 8h do dia seguinte, quando ela apresentava seis centímetros de dilatação, sendo que o protocolo indica dez.
O parto foi conduzido por dois médicos e cinco auxiliares. Conforme o relato policial, o marido da paciente foi acionado pela equipe médica para auxiliar em uma retirada forçada. O pai notou que a cabeça do bebê, chamado Ravi, apresentava formato anormal e um coágulo. O recém-nascido foi puxado bruscamente e nasceu sem sinais vitais. A equipe tentou a reanimação por 40 minutos antes de declarar o óbito. O corpo foi encaminhado ao Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal) sem a entrega de um documento oficial à família com os detalhes da morte.
A família relatou ainda que, após o óbito, um dos médicos afirmou que o casal era jovem e poderia “fazer outro bebê”, declarando que em um eventual retorno faria uma cesárea. A mãe não apresentou intercorrências ao longo da gestação e já possuía histórico de dois partos normais anteriores.
À época, em nota, a Maternidade Cândido Mariano informou que a paciente recebeu acompanhamento contínuo e negou falhas ou negligência no atendimento. A instituição alegou que ocorreu uma “distócia de ombro”, descrita como uma complicação obstétrica grave e imprevisível. A maternidade manifestou pesar pela perda e afirmou que o episódio seria apurado por suas comissões internas de Ética e de Óbito.
A partir desta denúncia inicial à Ouvidoria, o Ministério Público identificou a ocorrência de outros óbitos fetais e neonatais recentes na instituição, administrada pela Associação de Amparo à Maternidade e à Infância. O inquérito também anexou relatos públicos e um dossiê elaborado por outras famílias apontando situações de violência obstétrica.
A Promotoria solicitou informações detalhadas e parâmetros de mortalidade à direção do hospital, à Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), ao CRM-MS (Conselho Regional de Medicina) e ao Ministério da Saúde.
O procedimento tramita de forma reservada para proteger os dados sensíveis dos envolvidos e busca avaliar possíveis falhas estruturais na prestação do serviço. O caso segue sendo apurado pelas autoridades.





























