
Fechamento do estreito de Ormuz expõe fato incontornável: país que não controla sua política energética fica fragilizado
O Brasil vive um momento em que as teses dos governos que se sucederam estão sendo testadas em situação de instabilidade geopolítica. Em meio a uma nova escalada de tensões internacionais, com a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã e seus impactos diretos sobre o fluxo global de energia, volta ao centro do debate um tema que nunca deveria ter saído: a soberania energética.
O recente fecha-e-abre do estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço do petróleo transportado por via marítima no mundo, expõe com clareza um fato incontornável: países que não controlam sua política energética ficam fragilizados. Vulneráveis a choques de preços, a crises de abastecimento e, sobretudo, à perda de capacidade de planejar o próprio futuro.
O Brasil, por sua história, por sua capacidade técnica e por sua diversidade de fontes de energia, encontra-se em posição mais confortável do que a grande maioria dos países, principalmente em relação à matriz energética limpa. Mas precisamos avançar mais e mais rapidamente na transição energética justa e soberana.
Durante décadas, construímos uma das maiores empresas de petróleo do mundo. A Petrobras foi estruturada como instrumento de desenvolvimento nacional, com capacidade integrada de explorar, refinar, distribuir e garantir abastecimento em todo o território. Não se trata só de uma empresa. Trata-se de um ativo estratégico do Estado brasileiro.
Entretanto, somente agora o Brasil retoma o debate e as ações do controle da política energética como parte estratégica da soberania nacional e não apenas como uma cadeia econômica. A Petrobras, por exemplo, tem investido para se tornar uma grande empresa de energia, e não mais exclusivamente de petróleo.
No entanto, essa lógica foi profundamente fragilizada nos governos anteriores, principalmente do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na área do petróleo, de 2019 a 2022, o Brasil assistiu a um processo acelerado de desintegração do sistema nacional de refino e distribuição. Refinarias importantes foram vendidas, como a RLAM, na Bahia (atual Mataripe), a REMAN, no Amazonas, a SIX, no Paraná, além de unidades no Ceará e no Rio Grande do Norte. Distribuidoras estratégicas também foram alienadas, com destaque para a BR Distribuidora, hoje Vibra Energia.
Esses ativos foram vendidos, em muitos casos, abaixo do valor de mercado, em processos questionados por especialistas, órgãos de controle e pelo próprio mercado. Mais grave do que a perda patrimonial foi a perda de capacidade de coordenação nacional do setor.
Ao abrir mão de partes essenciais da cadeia, especialmente do refino e da distribuição, o Brasil reduziu sua capacidade de amortecer choques internacionais de petróleo. Hoje, com menor integração e maior presença de agentes privados sem compromisso com a política pública de preços, o país se torna mais exposto à volatilidade externa.
Isso tem consequências diretas no bolso da população.
A política de preços dos combustíveis deixa de ser uma ferramenta de estabilidade econômica e passa a ser um reflexo quase automático das oscilações internacionais. Em momentos de crise, como o que vivemos agora, isso significa aumento de preços, pressão inflacionária e impacto sobre toda a economia.
Não se trata de defender isolamento ou negar a importância do mercado. Trata-se de compreender que energia é um setor estratégico, como são a defesa, a saúde, a educação e a alimentação. Países desenvolvidos sabem disso e agem de acordo com esse entendimento.
O Brasil começa a recuperar essa visão.
Ao mesmo tempo em que discutimos a recomposição da capacidade de refino e a retomada do papel estratégico da Petrobras, precisamos olhar para o futuro. E esse futuro passa, necessariamente, pela ciência, pela inovação e pela sustentabilidade na direção de diversificação das fontes energéticas limpas, renováveis e seguras.
É aqui que entra um ponto fundamental: não há soberania energética sem investimento consistente em ciência e tecnologia. Não há transição energética sem universidades fortes, centros de pesquisa estruturados e políticas públicas de longo prazo.
A experiência que vivi à frente da Universidade de Brasília reforça essa convicção. Mesmo diante de cortes orçamentários severos, conseguimos manter a produção científica, ampliar a inclusão e fortalecer a relação da universidade com a sociedade. A ciência brasileira resiste, mas não pode continuar sendo tratada como acessória.
Se quisermos transformar nossas riquezas naturais, do petróleo às energias renováveis, em desenvolvimento real, precisamos de conhecimento, planejamento e Estado.
O Brasil tem condições únicas. Temos reservas energéticas relevantes, potencial extraordinário em energias limpas, capacidade técnica instalada e uma das maiores redes públicas de ensino superior do mundo. Poucos países reúnem esses ativos.
O que falta, muitas vezes, é pleno comprometimento político.
A crise internacional que se desenha deve servir como alerta. Não podemos continuar tratando a energia como uma variável de mercado qualquer. Ela é, antes de tudo, uma questão de soberania nacional.
Recuperar a capacidade de planejamento, recompor ativos estratégicos e investir em ciência e tecnologia não são escolhas ideológicas. São escolhas de país.
E o Brasil precisa decidir, com clareza, qual futuro quer construir.





























