
Indiferença diante da Copa reflete desigualdades, descrença na política e perda do sentimento de pertencimento
O descaso do brasileiro com a Copa, até esta véspera de estreia da seleção, por certo diz muito, sem que saibamos sequer o mínimo sobre o que diz. É uma atitude coletiva muito nova, ou muito velha como culminância de longa acumulação de razões, e inesperada demais para ter seus sentidos captados de imediato. A ocorrência estarrece, sua força dá um certo mal-estar, e só.
De como a vejo, em boa vizinhança, a comunidade do Vidigal –outrora favela hoje vencida pela invasão da alvenaria– é permanente ofertante de sinais. A iluminação que recepcionou as Copas passadas, embora variável com as circunstâncias, sempre refletiu euforias compartilhadas com bandeiras nas janelas e nos postes, pinturas no chão, murais, motos e carros com alguma alegoria. O Vidigal até agora só acende as luzes domésticas, de lâmpadas menos numerosas a cada aumento dos preços assaltantes da energia elétrica.
Ao vivo ou em foto, quem olha a praia em perspectiva vê, ao final, duas pedras altíssimas e pontiagudas: os 2 Irmãos, nascidos da mesma pedra-mãe. Ali está o Vidigal. Um pontinho menos do que microscópico na indiferença, do tamanho do próprio país, que não se deixou tocar pelo acontecimento sempre menos fascinante apenas do que o Carnaval.
Não saberia sugerir o fator preponderante, se há um, dentre os imagináveis estopins do descaso. No entanto, sei que integra o conjunto de desesperanças, cansaços, dificuldades crescentes do dia a dia, negação elitista de reconhecimento ao trabalho e seu valor, traições de votados para representar o povo real nas duas Casas do povo hipotético. Essa vida brasileira que vem de tão longe, que sempre foi, que muda em novas aparências para manter essencialmente a dureza e a impiedade, a injustiça e a desigualdade extrema.
A camisa da seleção foi usurpada pela direita como uniforme do golpismo, da conexão com milícias, do combate a vacinas, das canalhices rachadinhas, da traição ao país com apelo a ataques estrangeiros à economia, às empresas e à soberania brasileira.
Boa sorte, amanhã, a este triste país.
























