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Terça-feira, Julho 14, 2026
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Ademerval Garcia e a citricultura brasileira

O executivo transformou a gestão do setor de cítricos no Brasil e fortaleceu a pesquisa fitossanitária no país

Existem gigantes escondidos no sucesso do agronegócio nacional. Ademerval Garcia era um deles. Sua história marca a cadeia produtiva de cítrus no Brasil.

Ademerval, que morreu na 3ª feira (7.jul.2026), aos 82 anos, foi o 1º grande executivo da gestão empresarial ligada ao agro. Sua formação básica em direito, acrescida de pós-graduações em economia e marketing, o tornou um profissional de excelência, destacando-se, desde 1988, na direção da Abecitrus (Associação Brasileira de Exportadores de Cítricos).

Falava pela indústria de suco, mas tinha o olho nos laranjais, que passaram a sofrer com doenças terríveis, ameaçando a produção agrícola. Ademerval foi um dos pioneiros a pensar o agro dentro de uma cadeia produtiva. Indústria e produtores tinham que se sentar à mesma mesa.

Sua capacidade de articulação e sua visão estratégica o levaram, em 1994, à presidência do Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura). Ademerval colocou a indústria ao lado do campo, financiando a defesa fitossanitária. Criou o Departamento Científico do Fundecitrus, fez parcerias com o governo e buscou apoio internacional.

Em 2000, junto com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), promoveu o sequenciamento genético da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da clorose variegada dos citrus (CVC), doença conhecida por “amarelinho”. O fato científico representa a 1ª decodificação do genoma de um fitopatógeno do mundo.

Desde 1982, ao ultrapassar os EUA, o Brasil lidera o mercado mundial de suco de laranja. Naquela época, até a virada do século, pode-se dizer que tivemos um ciclo econômico histórico da citricultura, liderado por São Paulo, especialmente o Noroeste paulista, e tendo parte do Triângulo Mineiro como coadjuvante.

Bebedouro (SP) era o município símbolo da riqueza dos pomares, que se expandiram como nunca. Em 2000, colheu-se um recorde de produção: 470 milhões de caixas de laranja, das quais cerca de 90% viravam suco e corriam mundo afora. O “cinturão citrícola” ultrapassava 600 mil hectares plantados.

O boom produtivo, porém, travava uma luta feroz contra as doenças vegetais. Manter a saúde dos pomares exigia muita técnica e custava bastante dinheiro. Em 2004, detectou-se a chegada do greening, a pior de todas as moléstias da laranjeira. O auge se aproximava do fim.

Além das bactérias, vírus e fungos que devastavam os pomares de laranja e espremiam sua receita, a queda no preço passou a apertar o cinto dos citricultores. A indústria se concentrou, virou oligopólio, manipulando o mercado. Investiram em imensas plantações, alijando os menores produtores.

Pomares eram erradicados por doenças e pelos prejuízos financeiros. Mas, como a terra nunca fica parada, os canaviais passaram a tomar o lugar dos laranjais. Quem permaneceu na atividade se voltou ao mercado interno de frutas frescas.

A citricultura brasileira configura um caso raro de declínio, na contramão do pujante agro brasileiro. Em São Paulo, a área atualmente cultivada está ao redor de 360 mil hectares. E as exportações de suco de laranja estão no patamar de 700 mil toneladas. Quase metade daquele de 20 anos atrás.

O único consolo dessa tragédia produtiva é a queda total da citricultura da Flórida, nos EUA. A região norte-americana que rivalizava com São Paulo produziu só 12 milhões de caixas em 2025. Há 15 anos, havia colhido 140 milhões de caixas. Inimaginável.

Lá, como aqui, os agrônomos culpam as doenças, e os custos para erradicá-las, pela decadência da citricultura. Eles têm razão, mas em parte. Outro fenômeno explica a redução dos laranjais: a mudança na preferência do consumidor. O suco de laranja perdeu cartaz.

O surgimento de bebidas alternativas, com preços competitivos e bom apelo de marketing, afetou o mercado tradicional da laranja. Outros sucos tomaram seu lugar. Sim, o Brasil manteve a liderança mundial nas exportações de suco cítrico. Mas a demanda global caiu. Nos EUA, o consumo per capita desceu de 20 litros/ano para cerca de 8 litros/ano. A Europa seguiu a mesma tendência.

Na direção da Coca-Cola Company, onde trabalhava desde 2009 abrindo mercados pelo mundo afora, Ademerval Garcia acompanhava as mudanças do varejo de bebidas que, aos poucos, deixaram claro: quem manda na agricultura é o consumidor. Na gôndola do supermercado.

Vendo ocorrer as mudanças, ele dizia: “Quem quiser ficar na citricultura tem que ser muito profissional. Para a indústria, tem que ter escala; para o mercado interno, qualidade”. Não adianta reclamar, tem que se adaptar.

Não era um líder querido, nem muito simpático, ao estilo dos populistas. Ademerval Garcia era admirado pela sua inteligência, obstinação pelo conhecimento, busca por soluções. Quando dava uma direção, todos sabiam que ele olhava para o caminho certo.

Amém.