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Sexta-feira, Julho 17, 2026
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Flexibilização de armas nos EUA pode fortalecer facções criminosas no Brasil

A flexibilização das regras para a comercialização de armas nos Estados Unidos pode ampliar o acesso de organizações criminosas brasileiras a armamentos pesados. O alerta é de pesquisadores da área de segurança pública ouvidos pela Agência Brasil.

O governo do presidente Donald Trump prepara um conjunto de 34 mudanças nas normas do setor. Entre as propostas apresentadas pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos Estados Unidos estão a autorização para compra de armas pelos correios, a redução do período de armazenamento dos registros comerciais e a diminuição do rigor na consulta aos antecedentes dos compradores.

Especialistas avaliam que o impacto dessas medidas pode ultrapassar as fronteiras norte-americanas. Os Estados Unidos aparecem entre os principais países de origem das armas apreendidas com grupos criminosos em diferentes regiões do continente.

No México, aproximadamente 80% dos armamentos retirados de circulação em operações contra cartéis vieram dos Estados Unidos. No Haiti, a ONU estima que a maior parte das armas usadas pelas gangues que dominam cerca de 80% da capital Porto Príncipe também tenha origem norte-americana.

Dados do próprio governo dos EUA, analisados em uma pesquisa da Universidade de Harvard, mostram ainda que 73% das armas apreendidas em países do Caribe entre 2018 e 2022 saíram do território norte-americano.

No Brasil, a situação também provoca preocupação. Estudo publicado pelo periódico britânico Journal of Illicit Economies and Development analisou 1,7 mil fuzis ilegais apreendidos na Região Sudeste entre 2019 e 2023. Desse total, 54% foram fabricados ou tiveram origem nos Estados Unidos.

Os pesquisadores brasileiros Bruno Langeani e Natalia Pllachi destacam que os EUA ocupam a primeira posição entre os países estrangeiros de origem dos fuzis ilegais encontrados no Brasil. Para eles, esse tipo de arma tem papel estratégico na manutenção e na expansão das organizações criminosas.

Consultor sênior do Instituto Sou da Paz e um dos autores do levantamento, Langeani considera preocupante a possibilidade de redução dos controles. Ele afirma que as mudanças devem facilitar o acesso das facções brasileiras ao armamento norte-americano.

Outro problema apontado pelo pesquisador é a comercialização de peças semiprontas, sem registro ou fiscalização adequada. Como os componentes podem ser enviados separadamente, a identificação durante a passagem pelas alfândegas se torna mais difícil.

Quando são consideradas todas as armas de padrão militar apreendidas no Sudeste, e não somente os fuzis, o Brasil aparece como principal país de origem, seguido por Estados Unidos, Alemanha e Bélgica. O estudo, porém, ressalta que falhas no registro das apreensões impedem uma análise completa, já que parte significativa do armamento não tem a procedência identificada.

O cientista social Robson Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, afirma que a indústria armamentista exerce forte influência política nos Estados Unidos e pressiona pela redução da fiscalização. Com uma oferta maior e regras menos rígidas, ele avalia que a circulação ilegal em direção ao Brasil tende a aumentar.

Em setembro de 2025, o governo Trump já havia retirado restrições para a exportação de armas destinadas a 36 países. A relação inclui Paraguai, Colômbia, Suriname, Bolívia e Peru, nações próximas ao Brasil e algumas delas com histórico de desvio de armamentos para grupos criminosos.

Na ocasião, o Departamento de Comércio norte-americano argumentou que a mudança permitiria maior participação dos fabricantes em mercados internacionais, gerando centenas de milhões de dólares em negócios. Para Langeani, a redução das avaliações de risco também eleva as chances de que parte dessas armas seja desviada para o tráfico.

Os especialistas apontam uma contradição entre a política armamentista e o discurso adotado pela Casa Branca contra os cartéis latino-americanos. Enquanto o governo norte-americano classifica essas organizações como terroristas, reduz os controles sobre um mercado que abastece grupos criminosos fora do país.

Rodrigues defende que o enfrentamento ao tráfico de drogas inclua tanto a produção na América Latina quanto o consumo e a circulação de dinheiro nos Estados Unidos e na Europa. Segundo ele, interesses econômicos ligados à indústria armamentista ajudam a explicar a manutenção dessa política.

Entre 2008 e 2024, o faturamento do setor de armas e munições nos Estados Unidos aumentou 379% e chegou a US$ 91,7 bilhões. No mesmo período, a quantidade de empregos cresceu 130%, alcançando 382 mil postos de trabalho, conforme dados da Associação Comercial da Indústria de Armas de Fogo.