

A busca por emagrecimento rápido alimentava uma rede
clandestina de distribuição de medicamentos produzidos com clobenzorex,
substância psicotrópica proibida no Brasil e capaz de causar dependência. O
esquema, investigado pela PF (Polícia Federal), levou à prisão do sargento da
reserva da PM (Polícia Militar) Marcos Roberto da Silva, de 54 anos, e da
esposa, Valdenice Silveira Goes, de 48, nesta quinta-feira (22), em Dourados. O
casal é suspeito de fabricar e fornecer os produtos a intermediários
responsáveis por distribuí-los na região.
As investigações começaram com a abordagem de uma técnica
de enfermagem pela PRF (Polícia Rodoviária Federal). Ela transportava
medicamentos destinados a terceiros, sem prescrição médica. Na ocasião, os
policiais ainda não sabiam exatamente quais substâncias estavam presentes nos
produtos apreendidos, o que inviabilizou a prisão dele em flagrante.
A identificação ocorreu posteriormente, por meio de
exames periciais. A análise encontrou clobenzorex entre os componentes dos
medicamentos. A substância pertence à família das anfetaminas, atua como
estimulante do sistema nervoso central e já foi utilizada em medicamentos
anorexígenos, destinados à redução do apetite.
Desde março de 2021, o clobenzorex integra a lista F2 da
Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que reúne substâncias
psicotrópicas de uso proibido no Brasil. Na mesma relação está o LSD, droga
alucinógena. Isso não significa que as duas substâncias tenham os mesmos
efeitos, mas que estão sujeitas à proibição prevista nas normas sanitárias
brasileiras.
Com o resultado da perícia, os investigadores avançaram
na identificação dos responsáveis pelo fornecimento dos produtos. Descobriram
que a técnica de enfermagem seria uma das intermediárias de uma rede de
distribuição de medicamentos clandestinos, principalmente aqueles
comercializados para pessoas interessadas em perder peso.
Segundo a Polícia Federal, parte dos medicamentos
distribuídos pela profissional era adquirida do grupo investigado na operação
de quinta-feira. Os fornecedores também abasteciam outras pessoas da região,
que repassavam os produtos aos consumidores.
Os medicamentos eram comercializados no mercado informal,
sem identificação adequada e sem exigência de receita médica. Dessa forma, quem
comprava os comprimidos não tinha garantia sobre a composição, a concentração
das substâncias ou os riscos associados ao consumo.
A investigação aponta que o público inicialmente visado
era formado por pessoas interessadas em emagrecer rapidamente. A preocupação
dos policiais, entretanto, vai além da comercialização irregular. Como o
clobenzorex pode provocar dependência, os consumidores também ficam expostos ao
risco de continuar utilizando a substância pelos efeitos que ela provoca no
organismo.

Laboratório
clandestino
A identificação dos fornecedores levou os investigadores
a uma casa localizada na Rua José Stroppa, no Jardim Hilda, região sul de
Dourados. No imóvel, pertencente ao policial militar da reserva, funcionava uma
estrutura clandestina destinada à fabricação de medicamentos.
Durante a Operação Remédio Proscrito, a Polícia Federal
cumpriu dois mandados de busca e apreensão autorizados pela Justiça Federal. A
ação contou com a participação da PRF e apoio da Polícia Militar.
No laboratório, os policiais encontraram equipamentos,
substâncias ilícitas, embalagens e insumos utilizados na fabricação dos
comprimidos. O material apreendido permitiria produzir pelo menos 15 mil
unidades, conforme informações levantadas pelo Campo Grande News.
Os medicamentos eram comercializados em frascos com 15
comprimidos, vendidos por R$ 100. O preço inferior ao de outros produtos
utilizados para emagrecimento ajudava a atrair consumidores.
A comercialização dos medicamentos clandestinos chama a
atenção também pela localização do esquema. Mesmo com a facilidade de acesso a
emagrecedores injetáveis vendidos no Paraguai, país vizinho a Dourados, os
comprimidos falsificados à base de uma substância proibida no Brasil
encontravam espaço no mercado informal da região.
A procura pelos produtos indica que os medicamentos
clandestinos continuavam sendo uma alternativa para consumidores interessados
em perder peso rapidamente, apesar da oferta de injetáveis utilizados para
emagrecimento no comércio paraguaio.
A apuração também identificou indícios de que o esquema
funcionava havia pelo menos dez anos. A análise do celular apreendido com a
técnica de enfermagem revelou uma lista com pelo menos 400 compradores,
informação que contribuiu para identificar os suspeitos de fornecer os
medicamentos.
Marcos Roberto e Valdenice foram presos em flagrante e
encaminhados à Delegacia da Polícia Federal em Dourados. Ambos foram autuados
com base na Lei de Drogas e vão passar por audiência de custódia ainda nesta
sexta-feira.
Riscos à saúde
O clobenzorex é uma substância sintética derivada da
família das anfetaminas. Seu efeito estimulante sobre o sistema nervoso central
pode diminuir a sensação de fome, aumentar o estado de alerta e reduzir o sono.
Essas características explicam sua utilização em produtos
clandestinos vendidos como emagrecedores e também em comprimidos estimulantes
conhecidos popularmente como rebites.
O consumo pode provocar ansiedade, insônia, aceleração
dos batimentos cardíacos, alterações da pressão arterial e dependência. Em
situações de uso abusivo, os riscos à saúde aumentam, especialmente para
pessoas com problemas cardiovasculares.
O perigo é agravado pela fabricação clandestina.
Diferentemente dos medicamentos produzidos sob controle sanitário, os comprimidos
ilegais não oferecem garantias sobre a quantidade de princípio ativo presente
em cada unidade. Também podem conter outras substâncias não informadas ao
consumidor.
Relatório de química forense da própria Polícia Federal,
referente a 2023, identificou clobenzorex em 19 casos envolvendo medicamentos
examinados em laboratório. Em nenhum deles a presença da substância era
declarada na composição dos produtos.
O documento também relaciona o clobenzorex ao uso abusivo
de anorexígenos e estimulantes, inclusive nos comprimidos conhecidos como
rebites.
Investigação
continua
A Polícia Federal trabalha agora para identificar outros
integrantes da rede de distribuição, descobrir a origem das substâncias
utilizadas na fabricação dos medicamentos e interromper o abastecimento do
mercado clandestino.
Uma das frentes da investigação é esclarecer como os
produtos chegavam aos intermediários e quantas pessoas participaram de sua
comercialização. A polícia também busca estabelecer a extensão da rede que
abastecia consumidores interessados em medicamentos para emagrecimento.
O objetivo é identificar os responsáveis pelas diferentes
etapas do esquema, desde o fornecimento das substâncias proibidas até a entrega
dos comprimidos aos compradores, e impedir que os produtos continuem circulando
na região.




























