
Endividamento rural, seguro agrícola e escolhas ministeriais estão entre as pautas que devem orientar a relação com o setor
É sabido que a turma da agropecuária não gosta da esquerda, tendo jogado firme para derrotar Lula. Passadas as eleições, porém, vida que segue. Mais que a política, produzir é o gosto, e a necessidade, do agricultor.
A depender dos líderes políticos do agro, não há o que inventar. “Vitoriosos e vencidos precisam virar a página. Isso faz parte de uma democracia. Graças a Deus ainda estamos em uma”, declarou o deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), atual presidente da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), no Congresso Nacional.
O paranaense Pedro Lupion, 43 anos, deixará a presidência da FPA em 2027, depois de 2 mandatos consecutivos. Filho de um atuante e querido congressista, o pecuarista Abelardo Lupion, Pedro adquiriu bom trânsito no governo petista. Bom articulador, preparado, vai crescer na política.
Fortalecido na eleição, o bloco da direita agregada à FPA se aproxima, na próxima legislatura, de 330 deputados e 50 senadores. O governo sabe que terá que negociar pautas importantes com a Frente, sejam temas específicos, seja naquela linha de “vota aqui, ganha lá”. É assim que funciona o Poder Legislativo (sem necessariamente ter malandragens no meio).
Entre os temas próprios, destaca-se inicialmente a questão do endividamento rural. Uma combinação de fatores negativos, denominada por alguns de “tempestade perfeita”, levou grande parte dos produtores rurais, do setor de grãos, especialmente, a ficar inadimplente junto ao sistema financeiro. Muitas RJs (processos de recuperação judicial) travaram o mercado.
Em resposta ao problema, o governo publicou uma Medida Provisória (MP 1.376 de 2026), que caduca agora, em 11 de novembro. Para aprová-la, a FPA quer ampliar o alcance da proposta, passando dos atuais R$ 14 bilhões, a serem renegociados, para uma estimativa de R$ 100 bilhões de dívidas. Haverá pressão sobre o Tesouro.
Frente à “herança maldita” que Lula deixou para si mesmo nas finanças públicas, é curta a margem para essa negociação. Relata a proposta o senador não reeleito Renan Calheiros (MDB-AL). Uma saída será aprovar logo a MP com o compromisso de, em 2027, tratar de uma nova lei para avançar na matéria.
Maior eficácia do seguro rural é outro pleito do agro. A recente Lei 15.526 de 2026, de autoria da senadora Tereza Cristina (PP-MS), foi sancionada em 29 de setembro, mas precisa ainda ser regulamentada pelo Executivo. Será necessário, também, alocar recursos orçamentários, utilizados para subsidiar o prêmio, cortados pelo atual governo.
Em 2021, no governo Bolsonaro, a área agrícola coberta por seguro rural no Brasil era de 13,7 milhões de hectares; em 2024, a cobertura havia se reduzido para 7,2 milhões; e em 2025, só 3,2 milhões de hectares plantados estavam assegurados. Em relação à área, o seguro rural caiu de um patamar de 15% para 3% das plantações. Desabou.
Na logística, as ferrovias e hidrovias se destacam. Por décadas se aguardam novos corredores de exportação, no chamado Arco Norte, e pelo Nordeste. Licenças ficam travadas por querelas ambientais e direitos indígenas. Em qualquer país sério, que tivesse um projeto de nação, estariam funcionando. Aqui, permanecem no papel.
O agronegócio aguarda, naturalmente, a nomeação de um novo ministro da Agricultura, pois o de plantão, o pernambucano André de Paula, não é do ramo. A curiosidade de quem poderá ser indicado se junta a outra grande expectativa: quem ocupará a pasta do Meio Ambiente.
Compatibilizar a produção rural com a proteção ambiental é um grande desafio de Lula 4. Se permanecer no cargo, João Paulo Capobianco poderá estabelecer uma boa relação do meio ambiente com a agricultura. Se voltar Marina Silva, o clima azeda.
Nessas conversas todas, o vice-presidente Geraldo Alckmin deverá ter voz, pois se mostrou um bom interlocutor com o agro em projetos importantes, como o de redução da dependência externa de fertilizantes e o dos biocombustíveis. A conferir.
Outra complicação vem do fato de que o Brasil tem 2 ministérios da agricultura: um, verde-amarelo tradicional, que cuida do “agronegócio”; outro, vermelho, com a cara do MST, que cuida da “agricultura familiar”. A distinção, forçada politicamente, é única entre as nações agrícolas do mundo.
Resumindo: como se não bastassem as restrições orçamentárias, que atritam a produção agropecuária com o Tesouro, o agro tem ainda que lidar com a política ambientalista e a política agrária, que o costumam tratar como adversário. Ou inimigo.
Tempos difíceis para o agro nacional.



























