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Sexta-feira, Agosto 21, 2026
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Uma falsa impressão de democracia

Distorções no financiamento eleitoral e distribuição de recursos públicos criam desigualdade entre candidatos

A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais que já foram tentadas.

–Winston Churchill

Ninguém é dono da verdade e, a cada dia, a realidade demonstra que Churchill tinha razão. A democracia se consolida com o sufrágio popular e com o respeito à vontade da maioria. Para tanto, é necessário ter contornos legais que, em tese, pelo menos no papel, assegurem certa paridade de armas.

Então você é obrigado, por exemplo, a ver todas as candidaturas presidenciais terem algum espaço nas grandes mídias. É bom que seja assim. É democrático. Embora nós, eleitores, sejamos submetidos a um show de horrores e muitas bizarrices.

Temos que acompanhar o Zema, em horário nobre, sentado com 6 senhoras em uma conversa coloquial. Ou um candidato que não tem absolutamente nenhum discurso ou proposta, falando sobre o nada com uma empáfia que daria um belo curso de influencer.

Mas temos que defender essa democratização nas campanhas. Até porque nós, eleitores, temos a força de ter nas mãos o controle que pode simplesmente mudar de canal. Afinal, ninguém é obrigado a acompanhar as agendas diárias dos candidatos nem a ficar observando as ridículas idas às padarias para comer pão com leite condensado.

É claro que, para quem gosta de acompanhar a política, há sempre um proveito. Não só para tentar entender as mais diversas candidaturas, mas também para fazer uma análise sociológica do momento brasileiro.

É interessante ver o candidato Flávio Bolsonaro afirmar que vai repetir o governo do pai, o presidiário Jair Bolsonaro. Ou seja, nós temos um candidato que tem orgulho do caos. Que aposta na desgraça. Um niilista.

Na 3ª feira (18.ago.2026), ele, coerente com as ações do pai no governo, prometeu remover os entraves legais e regulatórios à exploração de minerais raros. Vai fazer o mesmo que o pai fez: acabar com toda fiscalização e entregar os nossos minerais raros preferencialmente aos EUA.

Isso foi amplamente feito na gestão Bolsonaro, em diversas áreas do agronegócio. Basta lembrar a inacreditável frase do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em 22 de abril de 2020, na qual ele defendeu “passar a boiada” e “mudar as regras ligadas à proteção ambiental de baciada”, sem precisar do Congresso, enquanto “as pessoas estão preocupadas com a covid”. Uma ação criminosa. E o atual candidato bolsonarista vai na mesma linha.

Os governos do Lula atenderam muito mais aos empresários do agronegócio em termos de crédito, apoio e condições de expandir. Mas, evidentemente, tinham regras a cumprir. O Bolsonaro abriu as porteiras. Ouvi de mais de um grande empresário do agro que, para parte deles, o que interessava era poder expandir e investir sem a fiscalização do governo. É a política do caos afirmando-se.

E é claro que a democracia se fortalece e se consolida com os eleitos no Senado e na Câmara dos Deputados, nas assembleias estaduais e na Câmara Legislativa do Distrito Federal e nas câmaras de vereadores espalhadas pelo Brasil. Aí é que enfrentamos hoje o grande embate e a grande farsa da democracia. Com a distribuição vergonhosa das verbas do Orçamento, acabou a hipótese de defender que existe uma democracia representativa.

Recentemente, escutei de um político sério e responsável, candidato a deputado federal, que é impossível concorrer com os deputados que estão no exercício do mandato, pois eles têm um caixa sem qualquer controle. Vários vereadores e candidatos a deputado estadual recebem mesada por fora para fazer campanha com dinheiro público. Sem limite e sem controle. Há uma falsa impressão de democracia.

Agora entendo por que, anos atrás, liguei para um forte e importante presidente de partido e disse a ele que tinha sido procurado por um candidato ao governo de um Estado grande e por um candidato a deputado federal. Ele me respondeu: “Vamos tomar um café da manhã na sua casa com o candidato a deputado federal”. Eu perguntei, na minha ingenuidade: “Não é mais importante o candidato ao governo?”. A resposta foi objetiva: “O que interessa é o fundo partidário, então o que importa é o deputado federal”. Claro que hoje o uso indiscriminado e abusivo do dinheiro das emendas, secretas e não secretas, tornou o poderoso fundo partidário não mais o principal meio de financiar campanhas.

Ao menos não é só o eleitor que paga o mico durante as campanhas. É só lembrar o que escrevi aqui mesmo, neste prestigiado espaço, em abril deste ano.

Corria o ano de 1989 e Ronaldo Caiado, líder da UDR, era candidato à Presidência da República. Dividia, à época, a direita com Collor de Mello. Eu namorava uma menina na minha cidade, Patos de Minas, e o pai dela era o líder ruralista da região. Durante a campanha, fui a Patos e, na hora de voltar para Brasília, dirigi-me ao aeroporto da cidade para pegar o avião de um cliente. Uma fila interminável de carros fazia uma passeata para receber Caiado.

Chegando ao aeroporto, deparei-me com uma banda de música e uma grande quantidade de adeptos daquele candidato. Quando o avião que ia me buscar se aproximou, as pessoas pensaram que era o de Caiado. Eu avisei ao meu então sogro que aquele avião era meu. Ninguém acreditou. O avião aterrissou e foi um show com queima de fogos e a banda tocando o hino de Patos. Fui ao avião, subi a escada e acenei para a multidão. O piloto, impressionado com meu “prestígio”, sorriu. Nesse momento, o avião de Caiado sobrevoa a pista e pousa sem foguetes para saudá-lo. Naquela eleição, ele teve menos de 1% dos votos. Também nas urnas ele não fez nenhum barulho.

Impossível não nos lembrarmos do poeta Fernando Pessoa incursionando na área da política: “A democracia baseia-se numa mentira universal: a da igualdade dos homens.