Polícia Federal fecha o cerco e põe ex-presidente num beco sem saída

A terça-feira, (22.ago.23), ‘amanheceu e entardeceu’ com nuvens cinzentas nos céus da extrema direita e do bolsonarismo. De um lado, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, em Brasília, em decisão unânime, manteve arquivada a ação de improbidade contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, que teve seu mandato cassado sob a acusação de praticar “pedaladas fiscais”. De outro lado, a Polícia Federal avançou nas investigações e recolheu novos e bombásticos indícios do envolvimento de Jair Bolsonaro em crimes como a tentativa de golpe de Estado e a apropriação indébita de joias dadas de presente ao governo brasileiro por dirigentes de outras nações.

Sobre o colo dos investigadores começaram a ser despejadas, em grande quantidade, indicações documentais robustas. A maioria desses indícios estava confinada e protegida até então nas memórias de telefones e das redes sociais eletrônicas. Com a autorização do Judiciário para a quebra de sigilos telefônicos, novas revelações emergiram, com claras sinalizações do ativo protagonismo de Bolsonaro nos arranjos do golpe frustrado e na evasão criminosa de joias do governo brasileiro para os balcões estrangeiros.  

Conforme apurou a investigação, do dinheiro obtido com a venda das peças, nem um real foi dado de comissão. Segundo seus vendedores — o ajudante-de-ordens do presidente, coronel Mauro Cid; o seu pai, general Lourena Cid; e o advogado Frederick Wassef — tudo foi repassado para Jair Bolsonaro. Este é apenas um dos muitos capítulos da história que a Polícia Federal, o Ministério Público e os tribunais (STF e TCU) começaram a escrever sobre a obscura passagem do capitão reformado do Exército pelo Palácio do Planalto.  

FAKE NEWS

 Meyer Nigri, dono da incorporadora Tecnisa. Ele também militou para que o governo bolsonarista liberasse cassinos no Brasil. Foto: ReproduçãoMeyer Nigri, dono da incorporadora Tecnisa. Ele também militou para que o governo bolsonarista liberasse cassinos no Brasil. Foto: Reprodução

O emprego de notícias falsas (fake news) foi uma das mais ativas operações do bolsonarismo na orquestração e execução das ações visando uma ruptura institucional. Com ruidosas manifestações de rua e acampamentos em frente aos quartéis do Exército, os bolsonaristas foram muito ousados em atos de terrorismo, primeiro na intenção de tumultuar as eleições, anulá-las e impedir a posse de Lula; depois, com o petista já eleito, fazendo a violenta quebradeira em Brasília, vandalizando as sedes dos três poderes da Republica (Legislativo, Executivo e Judiciário).

Bolsonaro colaborou decisivamente na construção desse quadro de destruição da democracia. A PF só quer identificar e avaliar o grau exato de comprometimento do ex-presidente, mas os indícios de seu protagonismo são cada vez mais robustos. Com o desbloqueio do celular do empresário Meyer Negri, os agentes descobriram ordens diretas de Bolsonaro para que membros de sua milícia digital disparassem ataques em massa às instituições da República. 

Nigri, fundador da Tecnisa, poderoso empresário ligado às forças de direita radical e amigo de Bolsonaro, conversava com Bolsonaro pelo celular. Numa dessas conversas, com ataques a integrantes do Supremo e também fake news sobre urnas digitais e pesquisas, o então presidente, em texto escrito com letras maiúsculas, deu esta ordem: “Repasse [o conteúdo da conversa] ao máximo”. O telefone celular de Nigri foi periciado em meio a uma investigação sobre empresários bolsonaristas que propagavam o golpe de Estado em um grupo de WhatsApp em 2022.  

ADVOGADO E AMIGO

Wassef, Lorena Cid e Mauro Cid. Fotos: Redes O advogado bolsonarista Frederick Wassef, general Lourena Cid e o ajudante de ordens Mauro Cid. Fotos: Redes 

A PF conseguiu na 2ª feira (21.ago.23), acessar as informações guardadas em quatro celulares de Frederick Wassef, advogado de Bolsonaro, apreendidos na semana anterior. Ele não entregou as senhas desses dispositivos, mas a PF obteve os dados por meio de técnicas periciais. Isto, para a polícia, sugere que Wassef tem muito a esconder, até porque um dos aparelhos era reservado com exclusividade para conversas com o presidente.

Agora, a PF vai prosseguir analisando o conteúdo das mensagens e dos arquivos armazenados. Na 3ª feira da semana passada, (15.ago.23), Wassef confirmou ter efetuado a recompra de relógio Rolex, que originalmente havia sido presenteado a Bolsonaro em viagem oficial à Arábia Saudita, utilizando dinheiro em espécie nos Estados Unidos.

OUTRO RELÓGIO SUMIU

De acordo com a PF, Bolsonaro não devolveu à União e nem falou onde está o relógio de luxo Patek Philippe, que lhe foi entregue como “presente” por autoridades de Bahrein, país árabe, em 2021. Bolsonaro é suspeito de vender a joia de luxo nos EUA em 2022. Até agora os federais não encontraram o objeto, mas descobriram que Jair Bolsonaro o vendeu junto com outro, um Rolex de ouro branco, pelo valor de US$ 68 mil (cerca de R$ 340 mil), em uma loja dos Estados Unidos. 

Na mesma viagem, o ex-mandatário recebeu uma escultura de “árvore” e uma de “barco”. Não foram vendidas porque eram “somente” folheadas de ouro. Como não tinha ciência de que esse relógio de luxo foi desviado por Jair Bolsonaro, o Tribunal de Contas da União (TCU) não determinou que ele fosse devolvido ao Estado brasileiro, como fez com outras joias. Por terem conseguido manter segredo sobre o objeto de luxo, Jair Bolsonaro e seus assessores não precisaram realizar uma “operação resgate” para “recomprar” o relógio.

ADVOGADO FORA

Daniel Bialski já não é mais advogado da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Hoje, 3ª feira (22.ago), ele deixou a sua defesa no caso das joias alegando razões “de foro íntimo”. Porém, soube-se que o verdadeiro motivo foi a decisão de Michelle de não desembolsar mais dinheiro como um novo advogado.

Bialski divulgou esta nota, pondo mais lenha na fogueira: “Deixarei de patrocinar a defesa no Inquérito nº 4.874/DF (Pet.11645), justamente porque os advogados que atualmente representam o ex-Presidente Jair Bolsonaro poderão e a representarão habilmente, daqui por diante neste caso”, diz comunicado do advogado. Os advogados de Michelle e de Bolsonaro têm divergido sobre a linha de defesa que devem adotar no caso das joias recebidas de presente no exterior. A equipe dela quer repetir a estratégia usada no caso dos cheques de Fabrício Queiroz em sua conta, que somavam R$ 89 mil.

CPMI SUSPENDE SESSÃO

Um dos sinais mais eloquentes da tensão e da agonia que vem contaminando os bolsonaristas foi dado hoje (terça-feira) na sessão da  CPI do 8 de Janeiro. Depois de marcar para a próxima 3ª feira (29.ago), o depoimento do coronel Fábio Augusto Vieira, ex-comandante da Polícia Militar do Distrito Federal, preso e apontado como responsável pela falha de segurança nos atos golpistas, os membros da CPI não se entenderam sobre o pedido de quebra de sigilo de Jair Bolsonaro e do general Lourena Cid, pai de Mauro Cid. Quem não deve, não teme.

Tudo o que falamos sobre o caso das joias: