Até os diagnósticos médicos viraram identidade

Enquanto pautas concretas de inclusão estão estagnadas, as redes sociais transformam diagnósticos psiquiátricos em identidades e modelos de negócio

Nestes tempos pós-modernos, as ciências sociais têm se desdobrado em disputas intensas sobre o conceito de identitarismo, geralmente definido como uma forma de essencializar identidades a ponto de perder o horizonte universalista e comprometer qualquer projeto político mais amplo.

Quando falamos em identitarismo, pensamos imediatamente nos movimentos negro, LGBTQIA+, red pill e outros grupos que organizam sua atuação política a partir de marcadores identitários, criando a lógica mercantilista das opressões que o capitalismo absorveu muito bem.

Há, no entanto, um campo muito mais amplo e ainda pouco explorado dessa tendência contemporânea de transformar características particulares em identidades centrais. Nos últimos anos, assistimos à explosão do uso de diagnósticos médicos como fundamento para novas formas de pertencimento social, quase como se uma identidade fosse oficialmente inaugurada no momento em que recebe o carimbo de uma receita médica.

Ansiedade, TDAH, autismo, depressão, transtorno borderline e uma infinidade de outras categorias deixaram de ocupar apenas os consultórios para organizar comunidades, linguagens, símbolos de pertencimento e até mercados de consumo.

É evidente que muitas pessoas encontram alívio ao receber um diagnóstico que finalmente oferece sentido para sofrimentos e dificuldades observadas. Um diagnóstico pode ser libertador. O problema surge quando ele deixa de ser uma ferramenta de compreensão e passa a funcionar como a principal definição de quem alguém é.

A cultura digital acelerou esse processo. Plataformas vivem da segmentação de públicos e da formação de comunidades. Quanto mais específica for uma identidade, mais fácil é reunir indivíduos em torno dela, produzir conteúdo direcionado, criar engajamento e novos nichos. O resultado é uma sociedade cada vez mais organizada por rótulos.

A explosão da linguagem da neurodiversidade, o crescimento das identidades associadas à saúde mental e as constantes expansões das siglas identitárias fazem parte de um mesmo fenômeno cultural: a necessidade permanente de produzir categorias cada vez mais específicas, gerando uma fragmentação que se retroalimenta.

Cada nova categoria produz demandas por representatividade, reconhecimento, especialistas, influenciadores, eventos, produtos, mercados. Não por acaso, identidade tornou-se também um excelente modelo de negócios.

O aspecto mais curioso desse processo é que a exposição pública de tratamentos psiquiátricos passou a carregar prestígio social. Falar sobre terapia, antidepressivos e ansiolíticos ajuda a reduzir estigmas sociais, mas nesta nova configuração, a linha entre a normalização e a romantização é tênue. 

Em determinados ambientes, especialmente entre jovens das classes médias urbanas hiperconectadas, o diagnóstico deixou de funcionar apenas como explicação para dificuldades concretas e passou a operar também como fonte de pertencimento, autenticidade e até distinção moral.

O impacto político dessa transformação é visível na ênfase contemporânea no reconhecimento identitário, muitas vezes tratado como prioridade enquanto problemas concretos permanecem sem solução.

Um exemplo disso é a discussão estagnada sobre a inclusão efetiva de alunos autistas na educação básica e a ampliação da acessibilidade para pessoas com deficiência visual e auditiva, temas que merecem mais atenção pública do que as disputas por reconhecimento identitário. O problema é que essas pautas exigem trabalho, investimento e políticas públicas de longo prazo. São muito menos instagramáveis do que a exibição permanente de identidades.

Talvez o verdadeiro desafio seja encontrar um equilíbrio. Diagnósticos são ferramentas valiosas para compreender condições específicas e garantir direitos a quem precisa. Mas uma sociedade que transforma toda diferença em identidade corre o risco de substituir a pergunta “como viver melhor?” pela pergunta “a qual categoria eu pertenço?”.