
Da Cooperativa de Cotia ao Cerrado, uma vida dedicada ao fortalecimento da agricultura e do desenvolvimento regional
Fundada em 1927 por imigrantes japoneses, a Cooperativa Agrícola de Cotia foi uma das entidades pioneiras na comercialização de batatas, legumes e frutas no Brasil. Entre seus protagonistas se encontra Américo Utumi.
Com formação em direito pelo Largo do São Francisco (USP), desde os 18 anos o nissei Américo Utumi trabalhava como auxiliar de escritório na Cooperativa de Cotia, onde permaneceu por 40 anos (de 1952 a 1992). Chegou a ser vice-presidente.
Empolgante, atencioso, querido, seu carisma o guindou a cargos de representação no movimento cooperativista, brasileiro e mundial. Tornou-se, mais que amigo, um braço direito de Roberto Rodrigues, o grande líder do setor.
Fizeram a unificação do sistema e elaboraram, junto com tantos outros idealistas, a Lei Nacional do Cooperativismo (Lei 5.764 de 1971), marco legal vigente. Fruto de sua destacada atuação, Américo Utumi foi eleito presidente da Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo, cumprindo 3 mandatos, de 1981 a 1993.
Nessa época o conheci, precisamente em setembro de 1993, quando trabalhava no Ministério da Fazenda, em São Paulo, auxiliando Fernando Henrique Cardoso na articulação do Plano Real junto à agropecuária. A estabilização da economia brasileira seria doída para os agentes produtivos acostumados a manter elevado endividamento bancário.
Era o caso da Cooperativa Agrícola de Cotia, que vinha rolando uma grande dívida há tempos, tomando um forte tranco financeiro. Tivemos que organizar uma operação, aglutinando os credores, intermediando interesses. Havia, porém, uma antiga, e muito séria, crise de gestão naquela cooperativa.
Américo Utumi me orientou, aconselhou, demonstrando uma virtude muito própria da cultura japonesa, mas rara por aqui: rigidez moral. Frente aos indícios de desvios e fraudes, ele não titubeou em endossar uma espécie de intervenção. A Cooperativa de Cotia estava falida.
É triste, mas essa é a história final de uma cooperativa agrícola exemplar, que chegou a ser a maior da América Latina. Sua atuação estimulou a formação de tantas outras, significando muito para o desenvolvimento da horticultura e da fruticultura nacionais.
Muitos creditam aos imigrantes japoneses, que desembarcaram inicialmente no Brasil em 1908, o costume da produção e alimentação de hortaliças. Os magníficos “cinturões verdes” da região metropolitana de São Paulo foram obra deles.
Lembro-me de meu pai dizendo: “Se você tem um terreno desocupado por aí, bota uma família japonesa lá que tudo fica espetacular”. A dedicação, verdadeiro amor pela terra, é característica essencial dos nipônicos, transmitida no país aos nisseis, a 2ª geração, que levou a uva e outras frutas para o Vale do São Francisco, em Petrolina (PE).
Foram também produzir grãos e café no Cerrado. No distante 1974, quando ainda poucos acreditavam no potencial daqueles solos áridos e ácidos, a Cooperativa Agrícola de Cotia iniciou a implantação de projetos de colonização, sendo mais famoso o de São Gotardo, município ao noroeste de Minas Gerais. Participavam assim do Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba, com incentivos dos governos federal e estadual.
Logo depois, em 1979, surgiu o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento Agrícola dos Cerrados (Prodecer), com apoio da Jica (Agência de Cooperação Internacional do Japão). Pelo lado brasileiro, estava o gigante Alysson Paolinelli, então ministro da Agricultura; pela comunidade nikkey, Américo Utumi falava.
Não só a Cooperativa de Cotia, mas outras entidades fundadas por japoneses foram para o Centro-Oeste, destacando-se o Sindicato Agrícola Nipo-Brasileiro, de Uberaba (MG), a Cooperativa Agrícola Sul-Brasil, a Cooperativa Agrícola Bandeirantes, a Cooperativa Central de Bastos e a Cooperativa Agrícola da Fazenda Katsura (Iguape, SP).
Com a vantagem da boa altitude, próxima dos 1.000 metros, o município mineiro de São Gotardo produz hoje 70% da cenoura consumida no Brasil. Destaca-se ainda na produção nacional de cebola, alho, batata e beterraba. Além de café e cereais. Obra dos Américos Utumis que ajudaram a forjar a agricultura brasileira.
Em entrevista, há 3 anos, a Priscila de Paula, do MundoCoop, Américo destacava que o cooperativismo é uma ferramenta extraordinária para o desenvolvimento econômico e social: “Na habitação, no consumo, no crédito, no agrícola, enfim, tudo que nos aflige poderia perfeitamente ser solucionado via cooperativas. Esse é o meu sonho dourado”.
Américo Utumi morreu em 1º de agosto, aos 92 anos. Deixou-nos seu exemplo. Seu sonho o torna inesquecível.



























