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Terça-feira, Setembro 15, 2026
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Debate sobre velocidade e segurança da IA ganha força no mundo

Trump rejeita desaceleração, enquanto empresas por trás da tecnologia falam em mecanismos para limitar os riscos

O debate sobre a velocidade de desenvolvimento da inteligência artificial e os riscos associados aos modelos mais avançados ganhou força nos últimos dias, com posições divergentes entre governos e empresas de tecnologia.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump (Partido Republicano) criticou o CEO da Anthropic, Dario Amodei, depois de o executivo defender a desaceleração no desenvolvimento dos sistemas de IA mais avançados. O republicano rejeitou, na 2ª feira (14.set.2026), a necessidade de novas barreiras à tecnologia. Disse que o principal mecanismo de controle deve ser um presidente forte e inteligente.

“O governo Trump impediu que ‘pessoas’ de IA fizessem ‘coisas’ más, ou potencialmente más, como Dario (Anthropic!), que agora finge ser um anjinho perfeito’”, escreveu o republicano.

A manifestação do presidente norte-americano se deu depois de Amodei publicar no sábado (12.set), em seu perfil no X, um texto em que disse que a velocidade recente de evolução dos modelos pode estar ultrapassando a capacidade de pesquisadores e empresas de garantir a segurança dos sistemas.

Amodei não defende interromper o desenvolvimento da IA, mas reduzir o ritmo para que verificações de segurança e testes acompanhem o seu avanço.

A discussão ganhou força depois da saída do pesquisador da Anthropic Jacob Coxon. Ao deixar a empresa, ele afirmou que “as pessoas que estão construindo IA acreditam sinceramente que ela pode acabar com todos nós até o fim da década”. O episódio reforçou o debate sobre os riscos da corrida por sistemas cada vez mais avançados.

Sam Altman, CEO e fundador da OpenAI, dona do ChatGPT, fez uma publicação concordando com Amodei. “Precisamos moderar o ritmo da inovação. Este tem sido um tópico primário das discussões que tivemos na OpenAI nas últimas semanas”, disse.  Ele declarou que mudanças estão sendo avaliadas e que, em breve, terá “mais para compartilhar”.

O CEO da Tesla, Elon Musk, também se pronunciou. O executivo é dono da xAI, empresa que desenvolveu o chatbot de IA, Grok. Ele compartilhou o texto de Amodei e disse que o executivo “está certo”.

Na 2ª feira (14.set), a Microsoft apresentou um código de conduta para seus modelos de IA, estabelecendo limites para o desenvolvimento e a operação de sistemas avançados. O documento, chamado de “Humanist AI Code of Conduct”, diz que os modelos devem permanecer sob controle humano e não podem resistir a interrupções, correções ou desligamentos.

O documento está em consulta pública e deverá ser revisado antes de orientar o desenvolvimento dos modelos da empresa a partir de 2027. Eis a íntegra, em inglês (PDF – 451 kB).

Em publicações na Truth Social feitas na 2ª feira (14.set), Trump disse que o argumento de que a IA vai “dominar” o mundo “é uma farsa”.

Em um dos posts, o republicano escreveu: “As pessoas que dizem que a IA vai destruir o mundo, e que os data centers são prejudiciais à sua vizinhança, são as mesmas que diziam, há pouco tempo, que o mundo seria extinto pelas ‘mudanças climáticas’. Essa farsa não funcionou para elas, e agora já partiram para a próxima. Essas pessoas são revolucionárias, mas revolucionárias de uma causa maligna e perversa. Em breve, você descobrirá que elas trabalham para gente que não tem em mente os melhores interesses dos Estados Unidos”.

CHINA

Na China, o governo adotou uma posição mais próxima à de Trump ao rejeitar o que classificou como alarmismo sobre os riscos da IA. O Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou que a tecnologia é uma “força para o bem” e disse que a disseminação de narrativas sobre ameaças e a transformação da IA em uma disputa entre países prejudicam a governança global.

“A China e os Estados Unidos, ambos como grandes potências em IA, devem fortalecer a cooperação”, declarou Mao Ning, porta-voz do ministério.

Ao mesmo tempo, o Ministério da Segurança do Estado da China reconheceu riscos associados ao uso da IA, principalmente para a segurança política e social. 

Em um manifesto publicado na revista estatal China Cyberspace, o ministro da Segurança do Estado, Chen Yixin, delineou uma estratégia para regular o setor. Chen disse que agências de inteligência estrangeiras tentam explorar a IA para roubar segredos de Estado e travar uma guerra cognitiva contra a China.

O presidente da China, Xi Jinping (Partido Comunista da China), apresentou um plano abrangente para aprofundar os laços tecnológicos e econômicos entre as nações do Brics, propondo uma iniciativa conjunta de IA e a expansão de redes comerciais. A declaração foi feita durante uma cúpula em Nova Délhi, no domingo (13.set).

OUTRAS REAÇÕES

No Canadá, o primeiro-ministro Mark Carney (Partido Liberal, centro-esquerda) defendeu a criação de um órgão internacional para supervisionar o desenvolvimento da tecnologia. A proposta é criar um conselho de estabilidade tecnológica para coordenar ações de segurança relacionadas à IA entre países.

Carney afirmou, em entrevista à Bloomberg publicada na 2ª feira (14.set), que é necessária maior coordenação internacional para garantir que o desenvolvimento da tecnologia seja feito de forma segura. 

Na Europa, o alerta veio da presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde. Ela afirmou, em discurso em Viena (Áustria) na 2ª feira (14.set), que o continente corre um risco “sem precedentes” de ficar isolado da tecnologia por depender de sistemas de IA desenvolvidos no exterior, principalmente nos Estados Unidos.

Lagarde defendeu o aumento da capacidade europeia de processamento e de centros de dados, além do desenvolvimento de modelos que funcionem em infraestrutura localizada na Europa. Segundo ela, a falta de capacidade própria pode dar a parceiros comerciais uma influência sobre o continente que poderia ser usada em negociações sobre tarifas e impostos digitais. 

Segundo Lagarde, estimativas do BCE indicam que, se adotada rapidamente, a IA poderia elevar o nível de produtividade em até 4% ao longo de uma década, o que teria um impacto transformador nas finanças públicas. No entanto, ela declarou que, hoje, “adotar” significa “importar” a tecnologia.

“A Europa enfrenta um dilema difícil. Ou ela adota uma postura cautelosa, por não conseguir proteger seus dados, e abre mão do crescimento; ou adota a IA rapidamente, torna-se altamente dependente e corre o risco de perder a liberdade de organizar sua economia de acordo com seus próprios valores”, declarou.