
Discurso contra imigrantes e a favor de tarifas que embalou a direita há mais de 1 século reaparece com o presidente norte-americano
Traduzo do inglês, resumindo e adaptando, com cortes no que for possível, a conversa entre alguns operários da cidade de Mugsborough, no intervalo dos trabalhos de reforma e pintura que empreendem na mansão de um milionário local.
Bob Crass, o mestre de obras, expressa o sentimento da maioria deles: “Todo mundo sabe que os imigrantes estão acabando com este país. E experimente comprar uma coisa numa loja qualquer: mais da metade de toda a coisarada que eles vendem vem de fora. Eles podem vender o que querem porque não pagam nada para importar. E os países deles cuidam de meter tarifas pesadas em cima dos nossos produtos para que não entre nada na terra deles, e já era tempo de dar um basta nisso.”
Outro trabalhador, chamado Harlow, tem suas dúvidas. “É, a gente recebe um monte de coisa de fora. Mas os outros países compram mais de nós do que a gente compra deles.”
“Ah, é?” Bob Crass se abespinha. “Você se acha todo sabido. Compram mais? Quanto foi que compraram no ano passado, e quanto foi que a gente comprou deles?”
Harlow não tinha, é claro, os números na cabeça. Teve de engolir em seco.
Crass tinha a vantagem de ler jornais, cheios de notícias sobre a quantidade de mercadorias estrangeiras abarrotando o mercado interno, e sobre o número enorme de imigrantes que chegavam sem parar, em condições miseráveis, prontos a cometer toda espécie de crimes e a destruir a economia do país.
Na opinião de Crass, uma política de proteção comercial, com tarifas contra bens importados, não se diferenciava de uma proteção das fronteiras contra os imigrantes. Se o país estava indo para a cucuia, era culpa dos estrangeiros. “Joga essa cambada de volta para o mar!”
Ele provoca outro personagem, chamado Owen: “Com essa realidade, como é que alguém ainda pode ser a favor de tarifas baixas e do livre comércio?”
Owen não se dá por achado. “Durante 50 anos tivemos tarifas baixas, e agora querem aumentar as tarifas. Tanto faz. Uma coisa ou outra pode melhorar a vida de alguns por certo tempo, mas a pobreza da maioria continua de qualquer jeito.”
“A culpa da pobreza vem da superpopulação”, diz Harlow.
“Superpopulação? Quando há um monte de terra largada sem plantio?”, responde Owen.
“A causa da pobreza é a bebida”, diz outro participante da roda da conversa.
Owen intervém novamente. “Mas se todos os bêbados resolvessem ficar sóbrios de repente, pelo raciocínio de vocês, ia ficar pior ainda, porque haveria ainda mais gente disposta a trabalhar e seria ainda mais difícil para nós arranjar emprego…”
A discussão continua por longas páginas. Certamente estamos familiarizados com argumentos desse tipo.
O interessante é que esse diálogo vem de um livro escrito na Inglaterra por volta de 1909. Chama-se “The Ragged-Trousered Philanthropists” (“Os Filantropos Esfarrapados”), e seu autor é Robert Tressell (1870-1911), militante socialista que ganhava a vida trabalhando como pintor e decorador de casas, do mesmo modo que os personagens de seu romance.
É um volume com mais de 750 páginas, repetitivo e programático, com a figura de Owen representando, nas discussões, as ideias “anti-sistema” de seu autor.
Passado mais de 1 século desde a morte de Tressell, sem dúvida desapareceu a credibilidade de uma solução puramente socialista para os problemas que ele aponta. Avanços na legislação do trabalho e na redistribuição de renda ajudaram, por outro lado, a diminuí-los em parte.
Nada disso é novidade. O que parece incrível, entretanto, é que aquele velhíssimo discurso anti-imigrantes e pró-tarifas defendido pelo personagem Crass seja hoje em dia dominante entre os adeptos de Trump e da direita populista na Europa. Devia estar tão desacreditado quanto o autoritarismo de esquerda.
Mas não: o que surge atualmente como “novidade” faz parte de um arsenal ideológico que, muito antes de aparecerem regimes com extremistas uniformizados ou populistas em mangas de camisa, era utilizado cotidianamente pela direita de casaca e de cartola. O truque e a empulhação são os mesmos, ainda que mudem o vestuário e os cortes de cabelo.




























