
Pesquisa da Embrapa comprova aroma e textura únicos da cultivar de Porto Marinho para obter indicação geográfica no INPI
Pesquisas lideradas pela Embrapa Agroindústria de Alimentos reuniram evidências científicas que subsidiam o pedido de Indicação Geográfica (IG) por DO (Denominação de Origem) do chamado “Arroz Anã de Porto Marinho” ao INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), depositado em 8 de agosto pela Apomar (Associação de Produtores Rurais, Pescadores, Artesãos, Moradores e Amigos de Porto Marinho e Entorno).
Com análises laboratoriais e metodologias avançadas, a ciência agora demonstra aquilo que o conhecimento popular já percebia no prato. Moradores de Porto Marinho, distrito rural de Cantagalo, no noroeste do estado do Rio de Janeiro, afirmam há décadas que o Arroz Anã produzido na região possui aroma, sabor e textura diferentes de qualquer outro arroz. Presente na culinária local e cultivado por agricultores familiares em sistema tradicional, o cereal carrega um reconhecimento construído pela experiência dos produtores e consumidores.
O trabalho integra um amplo levantamento envolvendo estudos físicos, físico-químicos, nutricionais e metabolômicos, além da caracterização da qualidade tecnológica e culinária do produto.
A coordenadora do projeto, pesquisadora Cristina Yoshie Takeiti, da Embrapa Agroindústria de Alimentos, explica que o objetivo central da pesquisa é comprovar cientificamente a relação entre as características singulares do arroz e o território onde ele é cultivado. Trata-se, portanto, de demonstrar que o Arroz Anã apresenta atributos diferenciados relacionados ao terroir de Porto Marinho.
“Uma Denominação de Origem exige evidências robustas de que as características do produto estão diretamente associadas ao meio geográfico e ao saber-fazer local”, complementa a pesquisadora.
O estudo foi apoiado pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Faperj (Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) e reuniu equipes multidisciplinares da Unirio (Embrapa e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro).
Aroma, textura e comportamento culinário diferenciados
Entre os resultados obtidos pela pesquisa estão análises comparativas do comportamento culinário do Arroz Anã em relação a variedades comerciais e especiais disponíveis no mercado.
Ensaios conduzidos na Embrapa Agroindústria de Alimentos demonstraram que o cereal apresenta perfil de viscosidade semelhante ao arroz utilizado na culinária japonesa, conhecido pela pegajosidade depois do cozimento. Ao mesmo tempo, o Arroz Anã apresentou intensificação aromática durante o aquecimento semelhante à observada em arrozes aromáticos do tipo jasmim.
Segundo Cristina Takeiti, essas características reforçam o potencial gastronômico e mercadológico do produto. “O Arroz Anã reúne atributos valorizados internacionalmente em arrozes especiais. Estamos falando de um produto diferenciado, cultivado em pequena escala por agricultores familiares e que possui identidade própria”, destaca.
Além das análises culinárias, os pesquisadores avaliaram características físicas dos grãos, composição nutricional, teor de compostos bioativos, perfil antioxidante e comportamento do amido durante o cozimento.
Metabolômica ajuda a construir “assinatura química”
Um dos diferenciais da pesquisa é o uso de análises metabolômicas de alta resolução para caracterizar o Arroz Anã.
A metabolômica é uma área da ciência que investiga os compostos químicos produzidos naturalmente pelos organismos. No caso do arroz, ela permite identificar moléculas relacionadas ao aroma, sabor, valor nutricional e outras características do produto.
As análises realizadas por cromatografia líquida e espectrometria de massas de alta resolução permitiram identificar padrões químicos específicos do arroz produzido em Porto Marinho. Mostraram que sua composição química está relacionada às condições em que ele é cultivado, segundo Mariana Simões Larraz Ferreira, professora do Programa de Pós-Graduação em Alimentos e Nutrição da Unirio. Os fatores climáticos e a interação da planta com os polinizadores influenciam a presença de compostos bioativos, como antioxidantes e precursores de aroma, reforçando a ligação entre as características sensoriais do arroz e o território onde ele é produzido.
O produto foi também comparado a diferentes cultivares (variedades cultivadas) de referência mantidas no Banco Ativo de Germoplasma da Embrapa Arroz e Feijão, o BAG Arroz. De acordo com Ferreira, os estudos contribuirão para estratégias de valorização comercial e proteção da identidade do produto.
“Os resultados revelaram um perfil químico diferenciado. Estamos construindo uma espécie de assinatura química do produto. Essas análises permitem identificar características próprias do Arroz Anã e demonstrar, com base em evidências científicas, sua singularidade em comparação com outros materiais genéticos”, explica
Reconhecimento científico
Pesquisadores da Embrapa Arroz e Feijão (GO) realizaram a caracterização morfoagronômica do Arroz Anã de Porto Marinho, etapa fundamental para o reconhecimento científico e a preservação dessa variedade tradicional. Detalharam as características da planta, como arquitetura, resistência a doenças, produtividade, altura, comportamento agronômico e qualidade dos grãos. Além disso, o material foi incorporado ao Banco Ativo de Germoplasma (BAG Arroz) da Embrapa, recebendo registro oficial como recurso genético conservado pela instituição.
Genótipos (constituições genéticas únicas) de referência do BAG Arroz, para comparação com o Arroz Anã, foram disponibilizados durante as análises metabolômicas realizadas pela equipe da Unirio. Essa etapa permitiu comparar o perfil químico do produto fluminense com diferentes cultivares comerciais e especiais conservadas pela Embrapa, fortalecendo a construção de uma “assinatura metabolômica” própria do Arroz Anã de Porto Marinho.
O pesquisador José Manoel Colombari Filho, da Embrapa Arroz e Feijão, conta que a caracterização morfoagronômica foi realizada na safra 2020/21, na Estação Experimental Fazenda Palmital em Goianira (GO). Foram avaliados diversos elementos como tipo de planta, altura da planta, postura da folha-bandeira (última folha logo abaixo do cacho de grãos) tolerância ao acamamento, número de panículas (cachos de flores) por planta, sensibilidade a estresses bióticos (reação a doenças de ocorrência natural, como brusone e mancha parda), dentre outros.
Nesse estudo, algumas características chamaram a atenção. “Esperava-se uma planta tradicional, com ângulo do colmo (caule) mais aberto. Porém, o Arroz Anã foi classificado como uma planta de tipo ‘moderno’, com colmos bem estruturados e ângulo ereto, apresentando uma boa tolerância ao acamamento mesmo sendo uma planta de porte alto (média de 123,2 cm)”, pontuou Colombari.
Ainda de acordo com o pesquisador, isso representa um diferencial agronômico interessante e comprova cientificamente a observação empírica dos agricultores de Porto Marinho, que relatam a tolerância dessa variedade aos ventos fortes das margens do rio Paraíba do Sul. Além disso, o porte de planta mais alto favorece a colheita manual.
Estudos para a caracterização da qualidade físico-química (industrial e culinária) dos grãos também foram conduzidos para avaliar aspectos, como, as dimensões do grão, percentagem de área gessada, teor de amilose (componente do amido) e temperatura de gelatinização.
Nessas análises, Colombari afirmou que foram identificados pontos de diferenciação como o baixo teor de amilose e temperatura de gelatinização intermediária. Isso resulta em grãos mais macios e levemente pegajosos, um perfil distinto das cultivares comerciais brasileiras de arroz longo fino, as quais normalmente apresentam teor de amilose intermediário a alto e baixa temperatura de gelatinização, o que favorece grãos mais soltos depois do cozimento. “Essas características do Arroz Anã ajudam a explicar a identidade culinária e a preferência dos consumidores da região”, concluiu o pesquisador.
Todo o trabalho contribuiu para afirmar a singularidade do produto e reforçou o embasamento técnico necessário para justificar junto ao INPI o reconhecimento desse arroz como Indicação Geográfica por Denominação de Origem.
Atributos do território influenciam a qualidade e singularidade
A avaliação e a caracterização dos solos de cultivo do Arroz Anã foram realizadas nos municípios de Itaocara e Cantagalo, que margeiam o rio Paraíba do Sul. Foram coletadas amostras de solos em 10 perfis distribuídos em 50 horizontes, com o objetivo de demarcar geograficamente a IG.
A ação foi conduzida por uma equipe da Embrapa Solos (RJ) composta pelos pesquisadores José Ronaldo de Macedo, Enio Fraga da Silva, Nilson Rendeiro Pereira, Waldir de Carvalho Junior e Alexandre Ortega e pelo analista Ricardo Dart.
“Delimitamos os ambientes onde o Arroz Anã é plantado, tanto pela geomorfologia, principalmente as planícies de inundação e os morros pequenos, como pelo mapa de solos, onde se verificaram os solos classificados como Neossolos Flúvicos e Gleissolos Háplicos nas várzeas”, explica Dart, que atua no Núcleo de Geomática do centro de pesquisa.
De acordo com os especialistas, as análises químicas das amostras de solos coletadas identificaram altos índices de nutrientes presentes, como cálcio, magnésio, potássio e ferro. Os resultados também indicaram a presença de pH muito alto.
“Identificamos pH variando de 5,7 até 8,7 nos solos da região até a profundidade de 80 centímetros, sendo que a média encontrada em solos brasileiros sob condições naturais fica entre 4,5 e 4,8”, explica Macedo. Segundo o pesquisador, nessas condições ocorre um processo gradual e progressivo de autocalagem do solo, por efeito da oxirredução de ferro, que reduz a acidez e melhora naturalmente a fertilidade dos solos.
Para a equipe de pesquisa da Embrapa Solos, os nutrientes encontrados nesses solos vêm do rio Paraíba do Sul. “Normalmente, as enchentes carregam sais minerais e matéria orgânica dos rios e os depositam nos solos. É como acontecia com o rio Nilo no Antigo Egito, que transbordava em determinada época do ano e adubava naturalmente os solos para os plantios”, ilustra Macedo.
A análise química dos solos da região também indicou a presença de argila de atividade média a alta. Há predominância de solos de textura argilosa nos Gleissolos Háplicos e Neossolos Flúvicos, tipos de solos minerais, ambos de beira de rio (aluvionares), que apresentam baixa infiltração da água. “Esses solos são excelentes para o plantio de arroz, pois retêm água por mais tempo no terreno. De forma empírica, os agricultores desenvolveram esse conhecimento tradicional e se aproveitaram dessa característica do solo para o cultivo do arroz Anã”, afirma Enio Fraga.
Plantio em terreno sódico e semialagado
Na região, os agricultores familiares desenvolveram uma técnica de inundar o solo de forma intermitente durante o ciclo da cultura, que acontece entre novembro e abril, acumulando água em taipas ou valetas que delimitam a área de plantio. “Para o plantio do arroz há muita necessidade de água e energia solar, desde a sua germinação até a colheita. Os solos e o ambiente da região favorecem essa prática”, acrescenta Fraga.
Os dados meteorológicos obtidos pelo pesquisador Alexandre Ortega junto ao Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) validam a prática agrícola tradicional, demonstrando que o plantio do Arroz Anã acompanha o ciclo de chuvas da região. A série meteorológica histórica, mapeada desde 1939, revela que entre outubro e fevereiro há enchentes recorrentes com índice pluviométrico superior a 60 milímetros, o que provoca o transbordamento do rio Paraíba do Sul e forma os Neossolos Flúvicos e Gleissolos Háplicos. “Pela descrição dos perfis é possível identificar a formação de camadas de solos e de horizontes que necessitam de longo tempo para o seu desenvolvimento. Isso é indicativo de solos que se renovam constantemente pelas águas”, reforça o pesquisador Nilson Pereira.
Outra etapa dos estudos de solos apontou causas para o aroma característico do Arroz Anã produzido na região. De acordo com os especialistas, para que a expressão do caráter aromático aconteça é preciso que as plantas sofram um estresse salino a partir de concentrações significativas de cálcio, magnésio e potássio. A análise química dos minerais dos solos revelou grande presença desses elementos na zona radicular, ou seja, na porção de solo ao redor das raízes do Arroz Anã.
Contudo, as análises também revelaram teores altos de sódio, um elemento não essencial para as plantas e que pode gerar baixa produtividade. “Esses altos teores de sódio foram identificados em profundidades abaixo da zona radicular do Arroz Anã e, nesse caso, não foram prejudiciais para o desenvolvimento da planta, nem inibiram o caráter aromático. É um fator bastante peculiar em um cultivo de arroz. De alguma forma, o Arroz Anã da região sofreu o estresse salino pela presença do cálcio, magnésio e potássio, favorável à expressão do caráter aromático, mas não sofreu influência negativa dos teores de sódio”, pondera Macedo.
Este texto foi publicado originalmente pela Embrapa em 8 de setembro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.



























