

O sul-mato-grossense ignorou os antecedentes dos candidatos e elegeu denunciados, réus e até condenados por corrupção, improbidade administrativa e até comandar organizações criminosas. Operações da Polícia Federal e do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) não desgastaram, mas serviram até upgrade dos candidatos, consagrados nas urnas em Mato Grosso do Sul.
O ex-governador Reinaldo Azambuja (PL), o primeiro suplente de senador, Nelsinho Trad (PSD), o presidente da Assembleia Legislativa, Gerson Claro, e o deputado estadual Jamilson Name, do PP, Zé Teixeira (PL), o ex-governador André Puccinelli (MDB) e o ex-prefeito de Três Lagoas, Ângelo Guerreiro (PSDB), poderiam ter dificuldade em um país, digamos, que fosse sério.
Eleito senador com uma votação histórica, 903.5543 votos, Reinaldo foi alvo da Operação Vostok, deflagrada em 12 de setembro de 2018 e denunciado pelo Ministério Público Federal por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e liderar organização criminosa. Conforme a denúncia, o ex-governador teria recebido R$ 67,7 milhões da JBS em troca de incentivos fiscais dados pelo Estado, que causaram prejuízos de R$ 209,7 milhões aos cofres públicos.
No entanto, a morosidade do Superior Tribunal de Justiça em analisar a denúncia, protocolada em 15 de outubro de 2020, foi o argumento usado pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, para anular a denúncia e livrar Reinaldo Azambuja em uma única canetada.
Toffoli também livrou da mesma denúncia o deputado estadual José Roberto Teixeira, o Zé Teixeira (PL), que virou réu por corrupção passiva por ter emitido R$ 1,3 milhão em duas notas frias para regularizar a propina paga pela JBS ao ex-tucano. A denúncia chegou a ser aceita pelo juiz Deyvis Ecco, da 2ª Vara Criminal. Zé Teixeira foi campeão de votos, com 54.080 votos, e foi reconduzido para o 9º mandato consecutivo na Assembleia aos 86 anos de idade.
Improbidade e
corrupção
Eleito primeiro suplente de senador na chapa de Reinaldo
Azambuja (PL), o senador Nelsinho Trad (PSD) foi alvo de 11 ações por
improbidade apenas pelo desvio na Operação Tapa-buracos. Ele responde a duas
ações por improbidade por ter recebido propina para dar a vitória a Solurb na
licitação da concessão do lixo em Campo Grande.
Em novembro do ano passado, o juiz Ariovaldo Nantes
Corrêa, da 1ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos,
condenou o senador pelo desvio de R$ 7,066 milhões por meio do contrato firmado
com a Proteco Construções, do ex-cunhado, João Amorim. Ele foi condenado a
ficar inelegível por 12 anos e a pagar R$ 1,4 milhão.
Na semana passada, o vice-presidente do Tribunal de
Justiça, desembargador Eduardo Machado Rocha, suspendeu duas ações contra
Nelsinho Trad pelo desvio de R$ 17 milhões. Um dos processos estava concluso
para sentença, referente ao desvio de R$ 8,3 milhões, mas o desembargador
determinou que o juiz não sentenciei Nelsinho.
Nelsinho já foi condenado também em uma ação por
improbidade pela concessão do lixo em março de 2021 pelo juiz David de Oliveira
Gomes Filho, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais
Homogêneos. O Tribunal de Justiça anulou a sentença, mas o MPE ainda apela para
obrigar o senador a pagar R$ 94,2 milhões.
Também sobre a concessão do lixo, o senador é réu e vai a
julgamento no dia 17 do próximo mês por ter recebido propina de R$ 50,8 milhões
para dar a vitória a Solurb. Conforme o MPE, Nelsinho recebeu a Fazenda
Papagaio, avaliada em R$ 29,2 milhões, como parte da propina.
Desvios no Detran
O presidente da Assembleia Legislativa, Gerson Claro, foi
reeleito para o 3º mandato consecutivo com 35.767 votos, apesar de responder a
duas ações pelo desvio de R$ 7,4 milhões no Detran/MS. A ação por improbidade
tramita na 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos.
Gerson chegou a ser preso em agosto de 2017 quando era
presidente do Detran pelo Gaeco na Operação Antivírus. O advogado não só ganhou
notoriedade, como caiu na simpatia do sul-mato-grossense. Ele também responde
na área criminal pelos crimes de corrupção, organização criminosa e fraude em
licitação. O processo estava concluso para sentença, mas a juíza Eucélia
Moreira Cassal, da 3ª Vara Criminal, foi obrigada a redistribuir para a 7ª Vara
Criminal.
O ex-prefeito de Três Lagoas, Ângelo Guerreiro (PSDB),
teve a condenação mantida por
unanimidade pelo Tribunal de Justiça pelo desvio de R$ 7,3 milhões por meio do
contrato do lixo firmado com a Financial Construtora Industrial. A 4ª Câmara Cível
manteve a sentença em setembro deste ano, mas o tucano foi salvo pelo Tribunal
Regional Eleitoral apesar de ter sido condenado por um órgão colegiado.
Além de não ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa,
Guerreiro teve mais sorte ainda ao ser eleito deputado estadual. Com 37.704
votos, ele retorna à Assembleia Legislativa consagrado pelo povo de Mato Grosso
do Sul.
O deputado estadual Jamilson Name teve a candidatura
deferida pelo TRE-MS apesar da condenação a oito anos por chefiar organização
criminosa. O MPE apelou ao Tribunal Superior Eleitoral e conseguiu o
indeferimento da candidatura, mas por decisão monocrática do ministro Sebastião
Reis Júnior.
Alvo da Operação Omertá, Jamilson foi salvo porque os
juízes eleitorais entenderam que a organização criminosa não era violenta nem
armada. Ele conseguiu 35.211 votos e pode assumir o 3º mandato se conseguir
reverter a candidatura no plenário do TSE.
Corrupção
Outro sortudo é o ex-governador André Puccinelli (MDB)
que dá a volta por cima após oito anos. Em 2018, ele desistiu de ser candidato
porque foi preso na Operação Lama Asfáltica. Alvo de várias ações por
improbidade e criminais, inclusive por supostamente ter recebido R$ 25 milhões
em propina da JBS, ele perdeu a disputa em 2022 quando tentou o Governo do
Estado.
Neste ano, liberado, porque conseguiu se livrar pela
prescrição ou foi salvo pela morosidade da Justiça, Puccinelli foi candidato a
deputado estadual e conseguiu 40.602 votos. Não foi o campeão de votos, como
sonhava, mas volta a assumir um cargo e terá imunidade para não ser preso por
um juiz de primeira instância.
Com base no histórico do eleitor de MS, o ex-governador
poderia ter mantido a candidatura em 2018 e ser eleito mesmo atrás das grades.
Como a reputação dos acusados por corrupção foram para a lona em outros
estados, Puccinelli temeu que o sul-mato-grossense seria tão intolerante com o
desvio de recursos públicos e optou por se livrar das ações da Justiça antes de
testar a popularidade nas urnas.
Até bolsonaristas defenderam alguns dos citados acima.
Capitão Contar, que chegou a pedir o impeachment de Reinaldo em decorrência da
Operação Vostok, deixou as críticas no passado para fazer dobradinha com o
ex-governador.
























