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Quinta-feira, Novembro 5, 2026
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Presidente do Paraguai renuncia em meio à crise bancária; vice assume

O presidente do Paraguai Santiago Peña, que renunciou hoje (Foto: Reprodução)

Enquanto a Câmara dos Deputados do Paraguai discutia a
abertura de um processo de impeachment contra o presidente, nesta quinta-feira
(5), o mandatário do país Santiago Peña anunciou a renúncia ao cargo, em meio a
uma crise financeira causada pela intervenção do Banco Central Paraguaio (BCP)
no banco digital Ueno Bank.

Abandonado pelo próprio partido, que passou a cobrar sua
renúncia, Peña justificou a decisão em nome da estabilidade do país e da
necessidade de “preservar nossas instituições”. O vice-presidente Pedro Allana
assumirá o cargo.

“Me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da
minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a
nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância”,
disse o presidente, em pronunciamento nas redes sociais.

“A história se encarregará de julgar e colocar na sua
devida dimensão os acontecimentos que hoje nos cabe vivenciar. Tomei a decisão
de apresentar a minha renúncia à Presidência da República”, acrescentou.

Crise

A crise financeira que sacudiu o Paraguai começou na
terça-feira (3) e se transformou em crise política.

Na manhã de hoje, a Câmara iniciou o debate para abertura
de um processo de impeachment que contava com o apoio até mesmo da legenda do
mandatário, o Partido Colorado.

O terremoto político no país vizinho é consequência da
liquidação do Ueno Bank, que tinha 2,9 milhões de correntistas, cerca de 60% da
população adulta do país. Essas pessoas tiveram seus depósitos congelados.

Após a liquidação do banco, o presidente do BC paraguaio,
Carlos Carvallo, renunciou ao cargo. Ele foi dirigente do banco digital até
2023, antes de assumir a chefia do Banco Central do país.

Protestos de rua cobram que os responsáveis pela crise
sejam punidos. O Ministério Público do Paraguai pediu a prisão de oito pessoas,
incluindo o presidente do Ueno, Juan Manuel Gustale.

Presidência

A crise atingiu o presidente Santiago Peña por ele ter
sido acionista, até março de 2025, do grupo que controla o banco, o Grupo
Vázquez.

Eleito em 2023, o Santiago Peña é um político da direita
conservadora do Partido Colorado que há sete décadas controla o poder no
Paraguai, exceto por cinco anos (1947-1952).

A oposição acusa o governo pelos investimentos realizados
pelo Instituto de Seguridade Social (PIS), que é estatal, no Ueno Bank.

O banco digital ainda administra o pagamento de pensões
de milhares de aposentados e tem cerca de 30% dos depósitos de fundos públicos,
estimados em US$ 850 milhões.

A oposição responsabiliza Peña pela crise por ele ter
nomeado para presidente do BC um ex-dirigente do Ueno. Ao anunciar a renúncia,
o presidente pediu desculpas ao povo paraguaio.

“Também quero pedir desculpas ao povo, caso em algum
momento eu tenha falhado. Nunca foi minha intenção trair a confiança que
depositaram em mim. A cada dia, assumi esta responsabilidade com a vontade de
trabalhar pelo Paraguai”, afirmou Peña.

Partido Colorado

O presidente do Partido Colorado e ex-presidente do país,
Horácio Cartes, afirmou que a legenda não estará ao lado “do latrocínio de
fundos públicos, privados e dos aposentados”.

O presidente do Congresso paraguaio, Bachi Nunéz, dois
dias antes de pedir a renúncia de Peña, avaliava à imprensa que o presidente não
poderia ser responsabilizado porque o Banco Central tinha autonomia
institucional.

A oposição acusa o Partido Colorado de querer se afastar
do escândalo que teria ajudado a construir. A deputada do Partido País
Solidário (PPS), Johanna Ortega, destacou, durante a sessão da Câmara, que os
recursos dos aposentados estavam sendo depositados em um banco próximo ao
presidente Peña.

“Temos alertado sobre conflitos de interesses, sobre a
utilização de instituições públicas para favorecer negócios privados de uns
poucos, e sobre o crime de gestão em proveito próprio — prática na qual este
Presidente da República tem incorrido sistematicamente”, afirmou.

O Paraguai conta com um fundo garantidor que pode
reembolsar até US$ 38 mil por pessoa, o que representa ₲ 228.300.000 na moeda
local, o equivalente a 75 salários-mínimos.

Consequências econômicas

A crise financeira e política do Paraguai abala a
reputação que o país vinha construindo de destino emergente da América do Sul
para o capital estrangeiro, com repercussões sobre a economia local.

A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai
(Asimcopar) destacou, em nota, que duas em cada três transações das grandes
redes varejistas do país são realizadas por contas do Ueno Bank.

“Ocorrerá, sem dúvida, uma semiparalisação do mercado
comercial no Paraguai. Essa situação não nos afeta apenas no âmbito comercial;
ela impacta também o cotidiano das famílias, afetando, assim, a vida diária de
milhões de pessoas”, disse o comunicado publicado na mídia local.

A agência de risco Moody’s afirmou que o caso coloca em
prova a capacidade das autoridades de gerir a situação de um banco importante.

“Um dos principais riscos que a Moody’s identifica está
nos depósitos que excedem a cobertura do seguro. Ainda que o BCP indicou que
97% dos depositantes estariam completamente cobertos, somente 30% dos depósitos
do Ueno se encontravam dentro dos limites da garantia”, afirmou a agência
Bloomberg Línea, com base na nota do Moody’s.

No Brasil, grupos políticos vêm defendendo que o país
vizinho seria um exemplo de sucesso econômico e financeiro.

O antropólogo Salvador Schavelzon, professor da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que a admiração desses
grupos com o Paraguai vem da ocupação que o agronegócio do Brasil realiza no
país vizinho.

“A direita brasileira achar que é um paraíso porque já
estão com os contatos políticos estabelecidos lá. Tem até agências do Banco do
Brasil, e se fala em português em escolas públicas, contrariando a lei
paraguaia. É como um terreno ocupado pelo agronegócio brasileiro”, afirmou o
estudioso da realidade paraguaia.