
Serviço de pagamentos chinês mostra interesse em se integrar ao Pix, o que pode aumentar ainda mais as tesões com os EUA
Se por um lado a relação entre Brasil e Estados Unidos azedou nos últimos meses com a aplicação das tarifas norte-americanas e a recente abertura de um processo de reciprocidade pelo governo brasileiro, a relação do Brasil com a China no campo econômico vem se estreitando.
Os países já tem uma relação de longa data como membros fundadores dos Brics e há anos participam de fóruns sobre como aproximar o Sul Global e reduzir a dependência da financeirização norte-americana e europeia. Coincidentemente ou não com o recrudescimento das relações com Washington, Brasil e China enfim ensaiam uma aproximação cada vez mais palpável de seus sistemas financeiros para driblar o dólar.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já manifestou em diversas oportunidades o desejo de se desvencilhar do dólar, inclusive retomando a ideia de criar uma moeda unificada dos Brics no mês passado. Pequim também não esconde suas intenções de não depender de transações na moeda norte-americana e já costura há anos acordos com países da Ásia em yuans. O comércio com a Rússia já é feito há anos quase todo em moeda chinesa.
Agora o Brasil também se torna uma opção dos chineses para internacionalizar sua moeda. O 1º passo concreto nessa direção foi o anúncio de que o Ministério da Fazenda planeja sua 1ª emissão brasileira de panda bonds –títulos da dívida em yuans– ainda neste ano. A ideia é captar 5 bilhões de yuans (R$ 3,8 bilhões) no mercado chinês.
Emitir panda bonds não é uma exclusividade brasileira. Muito pelo contrário, tendo em vista que a operação tem se tornado cada vez mais comum. Somente no 1º semestre deste ano, já foram 60 emissões de títulos em moeda chinesa que somam mais de 160 bilhões de yuans (cerca de R$ 120 bilhões; ou US$ 17,8 bilhões). Esse montante já equivale a 82,5% dos panda bonds emitidos ao longo de 2024 –ano recorde de operações.
O Estado brasileiro ter entrado na onda dos panda bonds já é um indicativo de há um alinhamento com o sistema financeiro chinês, mas o que pode de fato aproximar os países é o interesse da China em se integrar com o Pix, justamente o modelo de pagamentos que é um dos centros da disputa comercial com a Casa Branca.
Segundo uma reportagem do jornal chinês South China Morning Post, a Union Pay –maior operadora de bandeira de cartões de pagamento da China, a equivalente chinesa da Visa ou da Mastercard– planeja conectar aplicativos de pagamento chineses ao Pix.
A ideia a princípio é que turistas chineses que viajarem ao Brasil possam realizar pagamentos que normalmente são feitos por QR Code em aplicativos chineses como WeChat e Alipay escaneando códigos do Pix.
Nesse projeto piloto, os usuários do aplicativo UnionPay e de aplicativos de bancos chineses vinculados poderão escanear o código do estabelecimento e pagar com a conta bancária que utilizam em seus países de origem. Posteriormente esse projeto pode ser estendido a outras carteiras digitais da rede global da UnionPay –que é um serviço estatal.
Se por um lado os EUA tentam minar o Pix por driblar os serviços de empresas como Visa e Mastercard, a China adota uma estratégia mais acolhedora e que pode lhe render frutos no futuro. Até o momento, o governo brasileiro tem se mostrado intransigente em negociar o Pix com os norte-americanos e o apoio chinês pode dar gás ao Planalto enquanto a Casa Branca aperta a pressão.




























