
Homem mais rico do mundo lidera corrida para ocupar órbita baixa com Starlink e SpaceX
Cerca de 2/3 dos satélites artificiais que orbitam a Terra pertencem a Elon Musk. Ele é o dono da SpaceX. A empresa envia foguetes ao espaço. Os veículos despejam, para cada um dos lançamentos, algumas dezenas de satélites de pequeno porte. Esses objetos formam a constelação de 10.985 satélites da Starlink, outra empresa de Musk, que envia sinal de internet para áreas remotas.
Os dados são do GCAT (Catálogo Geral de Objetos Espaciais Artificiais), mantido pelo astrônomo Jonathan McDowell, e foram atualizados até 20 de agosto. A contagem muda constantemente, conforme novos equipamentos são lançados e unidades antigas deixam de operar.

Musk lidera a corrida global para ocupar a órbita baixa da Terra. Cientistas chamam o movimento de Novo Espaço –expressão que vem do termo em inglês “New Space”. É uma maneira de definir a entrada de empresas privadas em um empreendimento historicamente estatal. São companhias que aproveitam o barateamento da operação espacial para fabricar e lançar satélites em grande escala.
O modelo anterior concentrava as atividades em poucos satélites de grande porte, caros e projetados para operar durante muitos anos. Os novos equipamentos, geralmente utilizados para telecomunicações, são menores e distribuídos em constelações. Assim, a perda de uma unidade é compensada pelas demais. Em algumas redes, como a Starlink, os satélites também se comunicam entre si por sinais ópticos, formando uma espécie de malha no espaço.
A expansão da SpaceX ganhou força nos últimos anos.
A empresa realizou 62 lançamentos em 2022, número que subiu para 98 em 2023, 138 em 2024 e 170 em 2025. De janeiro a agosto de 2026, foram mais 104 missões. O intervalo médio entre lançamentos, que era de 30 dias em 2019, caiu para cerca de 2 dias em 2025 e em 2026, em valores arredondados.
Foram 412 lançamentos de 2024 a agosto de 2026, o equivalente a 57% das 718 missões contabilizadas pela companhia desde 2006. O ritmo permite à SpaceX ampliar a cobertura da Starlink e substituir rapidamente equipamentos antigos. Os satélites da constelação da empresa têm idade média de 2,2 anos.

A concorrente mais próxima é a OneWeb, que tem 632 satélites, ou 3,8% do total –a Starlink tem uma frota 17 vezes maior. A rede pertence ao grupo francês Eutelsat e também oferece conexão de baixa latência por meio de mais de 600 equipamentos em órbita baixa. Em janeiro de 2026, a companhia encomendou outros 340 satélites para renovar e expandir a constelação.
A Amazon também tenta reduzir a distância. O projeto da companhia Kuiper Systems, que passou a ser chamada de Amazon Leo, aparece no levantamento com 392 satélites, ou 2,4% do total. O projeto tem uma constelação de 3.236 equipamentos para oferecer internet em órbita baixa.
A corrida não se limita às telecomunicações.
O NRO, órgão de inteligência dos Estados Unidos, opera 312 satélites; a Planet Labs tem 110 equipamentos de observação da Terra; e a agência de desenvolvimento espacial do governo norte-americano possui 96 voltados à defesa.
CONGESTIONAMENTO NA ÓRBITA
Para o pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) Antonio Prado, a concentração em torno de Musk tende a diminuir.
“Eu acho que isso é um retrato do momento que vai ser mudado ao longo do tempo. Outros participantes aparecerão para disputar os mercados de internet e outros mercados que possam surgir”, diz.
O especialista afirma, no entanto, que esse novo cenário tem riscos, sobretudo em relação à quantidade de objetos circulando nas mesmas faixas de altitude: “A órbita baixa vai ficando superpopulada. Você aumenta a quantidade de detritos, isso aumenta o risco de choque”.
Não há um número único que determine a capacidade máxima da órbita baixa, porque os equipamentos podem ser distribuídos em diferentes altitudes e inclinações. O limite prático aparece antes da ocupação integral do espaço: quanto menor a distância entre os objetos, maior o número de aproximações e de manobras necessárias para evitar acidentes.
“Muito antes de você encher o espaço com satélites, porque acabou o espaço, você vai ter colisões em cadeia, um batendo nos outros e todos eles se destruindo”, disse o pesquisador.
Ele explica que esse risco se amplifica no fim da vida útil desses satélites. Os objetos ficam menos capazes de realizar manobras e o controle é perdido com mais facilidade.
Uma colisão pode produzir uma nuvem de fragmentos que atinge outros equipamentos, levando a novos detritos. É o processo conhecido como síndrome de Kessler. A Nasa afirma que, depois de determinada concentração de objetos, a cascata de colisões pode continuar mesmo sem novos lançamentos e tornar algumas órbitas inutilizáveis.
“A própria Estação Espacial Internacional já teve várias vezes que fazer manobras evasivas para fugir de detritos espaciais e isso com a quantidade que a gente tem hoje”, declarou Prado.
Segundo ele, a escalada também ameaça satélites maiores e mais importantes para a ciência e para a sociedade como um todo, como aqueles usados para previsão do tempo, acompanhamento de desastres e sensoriamento remoto. “Você vai ganhar uma internet melhor, mas, se você exagerar nessa quantidade, vai começar a ter outras dificuldades.”
CORRIDA COM A CHINA
A liderança de empresas norte-americanas no Novo Espaço tem como seu principal concorrente a China. Os Estados Unidos concentram 12.834 satélites, ou 77% do total –86% deles são da SpaceX. A China aparece em um distante 2º lugar, com 1.395 equipamentos e participação de 8,4%. A frota chinesa, entretanto, é recente: seus satélites têm idade média de 3 anos.
O avanço chinês é liderado principalmente por duas constelações. A estatal China SatNet opera 224 satélites, enquanto a Shanghai Spacecom tem 217 equipamentos da Qianfan, também chamada de SpaceSail. A idade média das duas redes é inferior a um ano. Ambas operam no setor de telecomunicações e projetam constelações na ordem das dezenas de milhares nos próximos anos.

SITUAÇÃO DO BRASIL
O Brasil ocupa a 23ª posição, com 20 satélites vinculados a empresas, universidades ou órgãos públicos sediados no país. Representam 0,1% do total e têm idade média de 11,5 anos. O dado não significa que todos tenham sido integralmente produzidos no Brasil, mas indica o país associado ao proprietário ou operador de cada equipamento.
O programa espacial brasileiro inclui equipamentos desenvolvidos no país, mas lançados por veículos estrangeiros. O 1º satélite brasileiro, o SCD-1 (Satélite de Coleta de Dados), foi projetado e construído pelo Inpe e colocado em órbita em 1993 por um foguete Pegasus, da empresa norte-americana Orbital Sciences com atuação da Nasa. Já o satélite brasileiro mais jovem, o Carcará 4, da FAB (Força Aérea Brasileira), foi lançado em 2024 pela SpaceX.
Parte da capacitação brasileira foi construída por meio do programa CBERS, parceria firmada com a China em 1988 para desenvolver satélites de sensoriamento remoto. O Brasil respondeu por 30% dos investimentos e dos componentes dos CBERS-1, 2 e 2B. A participação subiu para 50% nos CBERS-3, 4 e 04A, com a indústria brasileira responsável por itens como estrutura, fornecimento de energia, telemetria, transmissores e câmeras. Os equipamentos foram lançados da China.
De acordo com Prado, a parceria está sendo “intensificada”, o cientista cita 2 projetos em estudo para colocar mais 2 satélites em órbita. Para ele, ampliar o programa e investimentos nesse setor é necessário. Mencionou o uso para monitorar o território, antever desastres e mapear recursos naturais.
“Você pode comprar serviços até certo ponto, mas, em alguns momentos politicamente mais complexos, você precisa ter a sua independência”, afirmou.




























