
Nick Zimmerman diz que eventual vitória apertada do petista pode levar EUA a contestar o resultado
Nick Zimmerman, ex-diretor para Brasil e Cone Sul do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, afirmou haver risco real de o governo de Donald Trump (Partido Republicano) não reconhecer uma eventual vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por margem estreita na eleição presidencial brasileira. A avaliação foi dada em entrevista ao podcast “A Máquina”, publicada neste sábado (3.out.2026) pela Folha de S.Paulo.
Zimmerman ocupou o cargo durante o governo do democrata Barack Obama e hoje é pesquisador sênior do Inter-American Dialogue. Para ele, o nível de interferência de Trump na eleição brasileira não tem precedente recente na história dos Estados Unidos.
“Em um cenário no qual o presidente Lula ganha, mas por muito pouco, algo provável, não descarto a possibilidade de o governo Trump não reconhecer o resultado”, afirmou. “Espero uma postura oposta à do governo Biden quanto à credibilidade do processo eleitoral brasileiro.”
Sanções e pressão econômica
Segundo Zimmerman, uma eventual contestação do resultado poderia ser usada como instrumento de pressão sobre o Brasil e abrir espaço para novas sanções e outras medidas de coerção econômica a partir de 2027.
“Os danos na relação ficam cada vez maiores e menos reparáveis”, disse. “Além disso, no curto prazo, Trump poderia usar esse não reconhecimento do resultado como uma base para novas sanções. Poderia vir a ser um novo instrumento de pressão em 2027.”
O pesquisador afirmou que a relação entre Brasil e Estados Unidos chegou ao pior nível desde o golpe de 1964. Na avaliação dele, fazem parte desse contexto o tarifaço imposto ao Brasil no ano passado, as sanções da Lei Magnitsky ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e a designação do CV (Comando Vermelho) e do PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas.
Zimmerman também citou episódios que considera exemplos de interferência do governo Trump em eleições de outros países. Mencionou a promessa de US$ 20 bilhões à Argentina antes das eleições legislativas e a ameaça de corte de toda a ajuda externa a Honduras caso o candidato apoiado por Trump não vencesse.
“Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama, nenhum desses 3 apoiou publicamente candidatos de outros países nem usou a política econômica como instrumento de pressão para ajudar candidatos estrangeiros”, afirmou. “A postura de Trump de usar mecanismos do poder público e endossar outros candidatos é algo sem precedentes na história recente dos EUA.”
Cenário com vitória de Flávio
Em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro (PL), Zimmerman avalia que a relação entre os 2 governos poderia começar de forma mais cooperativa, mas teria como ponto de tensão a presença da China em setores estratégicos da economia brasileira.
Segundo o pesquisador, o governo Trump tentaria negociar limites ao acesso chinês à infraestrutura e aos minerais críticos do Brasil. “Vão tentar negociar com Flávio limites ao acesso que a China tem neste setor, considerado crucial para o futuro dos EUA”, afirmou. “Ele vai tentar limitar a entrada da China em setores-chave, a critério dos EUA.”
Zimmerman considera improvável que essa pressão produza resultados. Ele citou como referência a relação entre os governos Trump e Jair Bolsonaro e afirmou que, apesar da proximidade ideológica, Bolsonaro não impediu a participação da Huawei no 5G brasileiro. Para o pesquisador, esse alinhamento tem limites quando não é acompanhado de um projeto econômico concreto.
Em caso de vitória de Flávio, Zimmerman também vê espaço para negociações de comércio recíproco nos moldes dos ARTs defendidos por Trump, com possibilidade de redução de parte das tarifas impostas ao Brasil. A cooperação em segurança pública também poderia entrar na agenda.
Sobre a classificação do CV e do PCC como organizações narcoterroristas, Zimmerman descartou a possibilidade de operações militares norte-americanas em território brasileiro, mas apontou risco de impacto no sistema financeiro.
Segundo ele, bancos brasileiros poderiam ser afetados caso fossem considerados negligentes na prevenção à lavagem de dinheiro relacionada a organizações classificadas como terroristas pelos EUA. “Já tem 25 organizações classificadas como terroristas e a tendência é crescer”, disse. “Na medida em que isso crescer, é mais provável que o setor financeiro brasileiro e o de outros países sejam impactados.”




























