Leia as declarações contraditórias de Irã e EUA sobre o fim da guerra

Acordo mais recente visa à reabertura do estreito de Ormuz por 60 dias, mas EUA e Irã divergem sobre a cobrança de taxas

Autoridades dos Estados Unidos e do Irã apresentaram versões divergentes sobre pontos centrais do acordo preliminar anunciado no domingo (14.jun.2026), que visa a um cessar-fogo de 60 dias e a reabertura do estreito de Ormuz. 

O presidente norte-americano Donald Trump (Partido Republicano) afirmou que embarcações já circulam livremente pelo estreito, enquanto o governo iraniano afirma que poderá cobrar taxas por serviços marítimos, como navegação, segurança e proteção ambiental.

VERSÃO DOS EUA

Segundo publicação de Trump na rede Truth Social, navios “já estão começando a sair do estreito de Ormuz”, incluindo embarcações carregadas de petróleo. O republicano disse que a rota está “totalmente segura”.

Em paralelo, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, afirmou ao jornal CNBC que a expectativa norte-americana é de que o estreito seja reaberto “sem cobrança de pedágio a longo prazo”, destacando que esse ponto ainda será definido em negociações técnicas.

VERSÃO DO IRÃ

Do lado iraniano, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baqaei, afirmou a repórteres, segundo o jornal Al Jazeera, que o acordo visa à possibilidade de cobrança por serviços ligados à navegação.

Serão cobradas taxas por serviços de navegação, proteção ambiental, seguro de navios e outros serviços necessários”, disse. Baqaei acrescentou ainda que o Irã mantém “profunda desconfiança” em relação aos Estados Unidos, atribuída a uma “longa história de atos ilícitos”.

IMPASSE SOBRE o Líbano

O antigo cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, firmado em abril e mediado pelo Paquistão, entrou em colapso poucos dias depois de sua implementação devido a interpretações divergentes sobre seus termos centrais. O acordo visava, em tese, a uma pausa inicial de 2 semanas nas hostilidades. No entanto, desde o início, não havia consenso sobre o escopo da trégua.

Autoridades iranianas e mediadores paquistaneses afirmavam que o entendimento abrangia toda a região, incluindo a interrupção de operações militares israelenses contra o Hezbollah no Líbano. Já Estados Unidos e Israel consideravam que o território libanês estava fora do acordo. 

“Acho que isso decorre de um mal-entendido legítimo. Acho que os iranianos pensaram que o cessar-fogo incluía o Líbano, mas não incluía”, disse JD Vance a repórteres em Budapeste, segundo a agência Reuters.

A divergência se materializou horas depois da entrada em vigor da trégua, em 8 de abril, quando Israel lançou uma ofensiva de grande escala contra posições do Hezbollah no sul do Líbano e em Beirute. O Irã classificou a ação como violação direta do cessar-fogo e passou a considerar o acordo invalidado.

Em publicação no X, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Ghalibaf, listou 3 violações do acordo, dentro da estrutura de 10 pontos apresentada pelo governo iraniano como base para as tratativas.

A profunda desconfiança histórica que mantemos em relação aos Estados Unidos decorre de suas repetidas violações de todos os tipos de compromissos — um padrão que, infelizmente, voltou a se repetir mais uma vez“, disse.

Segundo Ghalibaf, a 1ª violação refere-se à continuidade dos combates no Líbano. A 2ª violação mencionada é sobre o princípio de não agressão. A proposta iraniana estabelecia o fim imediato das hostilidades. O líder iraniano disse que, “um drone intruso entrou no espaço aéreo iraniano, que foi destruído na cidade de Lar, na província de Fars, em clara violação da cláusula que proíbe qualquer outra violação do espaço aéreo iraniano”.

A 3ª cláusula está relacionada ao direito iraniano ao enriquecimento de urânio, que teria sido negado por Trump.

Ghalibaf atribuiu a impossibilidade de prosseguir com as negociações ao que classificou como descumprimento de compromissos. Leia a íntegra da carta, traduzida para portugês (PDF – 41,1 kB).

Programa nuclear iraniano

Em abril, tentativas de preservar a negociação por meio de reuniões em Islamabad, capital do Paquistão, esbarraram em impasses sobre o programa nuclear iraniano. Trump defendia a adoção de “enriquecimento zero” de urânio, exigência rejeitada por Teerã. 

No dia 16 de abril, o republicano afirmou que o Irã concordou em entregar suas reservas de urânio enriquecido para encerrar o conflito no Oriente Médio. A ação não foi confirmada por autoridades iranianas.

De acordo Trump, a entrega do material, que ele chamou de “pó nuclear”, faria parte de um possível acordo de paz. Ele disse ainda que havia “grande chance” de entendimento entre as partes. 

Em 24 de maio, porém, uma fonte do governo iraniano disse à agência Reuters que Teerã não havia concordado em entregar seu estoque de urânio altamente enriquecido, contrariando declarações anteriores de Trump.

Na ocasião, autoridades iranianas sustentavam que o memorando em discussão tratava do fim das hostilidades, da reabertura do estreito de Ormuz e do alívio de sanções, deixando as questões nucleares para uma etapa posterior das negociações.