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Segunda-feira, Setembro 21, 2026
Início Internacional Lula e Trump vão se contrapor em discursos na ONU

Lula e Trump vão se contrapor em discursos na ONU

Tensão por facções brasileiras marca a ida do petista, que vai pregar multilateralismo enquanto o republicano prioriza a guerra no Irã

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos EUA, Donald Trump (Partido Republicano), discursam em sequência na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, na 3ª feira (22.set.2026), com mensagens opostas e depois de uma série de atritos entre os 2 governos. 

Lula vai exaltar o multilateralismo, a paz mundial e a não interferência em assuntos domésticos. Trump deve priorizar a guerra com o Irã, o Oriente Médio, a ameaça nuclear e a alta dos combustíveis nos EUA.

Por tradição desde 1955, o Brasil é o 1º a falar. Trump é o 2º. Será a 11ª participação de Lula na abertura da Assembleia como presidente. Ele chega a Nova York na noite de domingo (20.set) e volta ao Brasil no dia do discurso.

Segundo o governo, o petista deve defender a negociação para resolver disputas, o respeito ao direito internacional humanitário e a reforma da ONU, em particular do Conselho de Segurança. O tema da sessão é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma ONU que atenda a todas as pessoas”.

A versão atual do texto não faz referência direta a Trump nem ao Escudo das Américas, iniciativa de segurança dos EUA na região –lida pelo Planalto como reedição do Plano Colômbia, focado na repressão e no afastamento da China do hemisfério.

Contudo, Lula vai falar sobre a defesa da soberania e da democracia, o repúdio a interferências externas e a cooperação internacional contra o crime organizado.

O modelo de discurso a ser seguido é o de 2025, quando Lula afirmou: “Nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”, sem citar o norte-americano. Os termos “interferência” e “eleições” podem aparecer.

No domingo (20.set.2026), Brasil, Canadá, União Europeia e Quênia lançaram um manifesto conjunto. A iniciativa foi publicada no jornal Financial Times (para assinantes) horas antes do início da Assembleia Geral.

A iniciativa busca reunir países de diferentes regiões para promover reformas na ONU e em outras instituições multilaterais. O texto afirma que o mundo está diante de uma escolha: renovar a cooperação multilateral ou permitir que a polarização e a disputa de poder definam a próxima era.

O documento é assinado pelo presidente Lula, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, do premiê do Canadá, Mark Carney, e do presidente do Quênia, William Ruto.

TRUMP NA CONTRAMÃO 

O republicano discursará 6 meses depois do início das hostilidades entre EUA e Irã. Deve defender as operações militares, repetir que Teerã não pode ter arma nuclear e apresentar sua política externa como “construção de paz”.

Em 2025, usou a tribuna para dizer que os bombardeios às instalações nucleares iranianas haviam “destruído totalmente tudo”. Agora, o diesel em nível recorde e a gasolina mais cara pressionam o governo às vésperas das eleições de meio de mandato, em novembro.

À margem da Assembleia, Trump planeja se reunir pela 1ª vez com Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, segundo o Axios. Delcy assumiu o poder depois que Nicolás Maduro foi capturado, em 3 de janeiro, durante um bombardeio dos EUA em Caracas. Desde aquela data, o governo Trump reconheceu sua autoridade.

ATRITOS RECENTES

O discurso será a menos de 2 semanas do 1º turno da eleição brasileira (4.out). O governo Lula reconhece que elogiar o petista seria entregar-lhe um trunfo. Mas mesmo uma foto entre os presidentes não teria força para alterar, por si só, a opinião de quem colocou um boneco de Donald Trump na Avenida Paulista no 7 de setembro de 2026.

O Planalto atribui o afago de Trump em 2025 a um improviso. A leitura é de que o Departamento de Estado foi surpreendido: o elogio a Lula não estava no texto, e o republicano teria ignorado o teleprompter. Os presidentes se abraçaram nos corredores e combinaram um encontro.

Para este ano, o Planalto considera duas possibilidades de Trump: crítica leve ou silêncio. 

As relações entre os dois chefes de Estado azedaram no ano passado, com tarifa de 50% e sanções a Alexandre de Moraes ligadas ao julgamento de Jair Bolsonaro (PL).

O governo de Trump também se aproximou de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que passou a atuar nos EUA em defesa do pai e contra decisões do STF. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também manteve interlocução com o governo e participou das articulações políticas contra políticas do petista.

O novo tarifaço, as críticas de integrantes do governo Trump ao Judiciário brasileiro e as ofensivas de congressistas republicanos contra a regulação das plataformas digitais fazem parte de uma mesma estratégia de pressão sobre o o pleito do país, na avaliação do governo. 

A reação de Lula foi transformar a defesa da soberania em uma das principais peças de sua campanha.

Houve aproximação: os presidentes tiveram 7 contatos, entre telefonemas e encontros, incluindo reunião na Casa Branca em 7 de maio. Temas políticos foram perdendo espaço, e parte dos 21 pontos apresentados pelos EUA migrou para a negociação comercial da Seção 301.

A última conversa, por telefone, foi em 21 de julho e durou 1h20. Por telefone, Lula afirmou ao norte-americano que as eleições do Brasil eram seguras

Na 3ª feira (15.set), a Casa Branca divulgou relatório ao Congresso que acusa o governo Lula de falhar contra PCC e Comando Vermelho, que teriam transformado o país em “centro para o fluxo global de cocaína”. Os EUA classificam as facções como terroristas. O Ministério da Justiça negou falhas na 4ª feira (16.set).

O Planalto vê no relatório uma manobra eleitoral segura para Trump, mais confortável que aplicar a Lei Magnitsky a ministros do Supremo Tribunal Federal. O Planalto diz que o documento tenta politizar o momento, por isso, não seria surpreendente se Trump citasse as facções na ONU.

O governo teme que, ao tratar o crime organizado como questão de segurança nacional, Washington abra caminho ao uso da força. Vê paralelo com a intervenção que levou à captura de Nicolás Maduro.

ENCONTRO

Não há reunião bilateral marcada, e nenhum dos lados pediu reunião. O mais provável é um cumprimento nos corredores. Lula tem cerca de 30 pedidos de encontros com outros líderes, e a maioria deve ficar de fora.

A estada deve durar menos de 48 horas. O roteiro enxuto é sinal de respeito à campanha eleitoral.

Eis a agenda do Brasil em Nova York:

  • 2ª feira (21.set): bilaterais de Lula;
  • 3ª feira (22.set): discurso de abertura e reunião com o secretário-geral, António Guterres, que deixa o cargo em 31 de dezembro;
  • 4ª feira (23.set): reunião da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, presidida pelo chanceler Mauro Vieira;
  • 5ª feira (24.set): reunião ministerial da Zopacas (Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul), também presidida por Vieira.

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