
Perseguição a casal expõe como estruturas hierárquicas podem estimular abusos e intimidação
Em 1999, o casal Ina e David Steiner conseguiu transformar seu prazer em um meio de ganhar a vida: um jornal especializado que cobria sites de e-commerce que permitiam vendas e leilões de objetos usados, e comercializadas diretamente pelo proprietário, como o eBay, Etsy e Amazon. Fazia tempo que os 2 eram fascinados com antiguidades e se entretinham com a busca de itens valiosos ou curiosos colocados à venda pelos proprietários, algo comum na Europa e nos Estados Unidos.
Nos EUA, existem as chamadas “vendas de garagem” (garage sales), onde famílias reciclam itens vendendo os objetos na garagem ou quintal de casa por preço bem baixo. Na Inglaterra, existem feiras só para isso, as bootfairs –mercados de final de semana ao ar livre onde as pessoas vendem objetos usados expondo os itens no porta-malas do carro.
É difícil imaginar um veículo mais inocente que o site dos Steiners, que começou com o nome auctionbytes.com e hoje chama ecommercebytes.com. Mas, mesmo humilde, e com a aparência de um blog feito precariamente, o site acabou ficando bastante conhecido entre vendedores. Além de cobrir notícias do setor, o casal fazia o trabalho chato de analisar termos de uso das plataformas de comércio e traduzir as linhas finas. Até que um dia Ina criticou o salário do novo CEO da eBay.
Como conta o New York Times, em abril de 2019 Ina publicou no seu site o salário anual do novo CEO da eBay, US$ 18 milhões. Para ela, um valor daquele certamente iria diminuir a fatia dos vendedores e compradores que usavam o eBay como plataforma de mediação da venda. Foi aí que o diretor de Comunicação da empresa, Steve Wymer, enviou um e-mail para o CEO Devin Wenig, ex-advogado e ex-executivo da Thomson Reuters, com o link da postagem e o comentário “Nós vamos triturar essa mulher”.
Em outra ocasião, diante de mais uma menção ao eBay (desta vez positiva), o CEO confirmou que a ideia era destruir o site: “Take her down” (“Derrube-a”). Segundo registros judiciais, o chefe de Comunicação deixou outros rastros da decisão de perseguir o casal Steiner: “Eu quero ver cinzas. Não importa quanto tempo leve. E não importa como”.
E assim, como frequentemente acontece com a máfia, com políticos e com juízes protegidos por seguranças que se tornam seus sicários, foi dado um comando sem qualquer ordem direta, sem instrução objetiva, sem um registro que permitisse averiguação da cadeia de comando. E funcionários da eBay –ao menos 6 deles– agiram como os integrantes de menor senioridade da máfia: cumpriram ordens que mal precisaram receber.
A partir daí, a vida de Ina e David se tornou um pesadelo. As ameaças que recebiam pareciam saídas de um filme de horror. Como conta David em 2023 ao programa 60 Minutes, da CBS, em sua 1ª entrevista exclusiva depois de serem indenizados em mais de US$ 50 milhões, os funcionários da eBay que os aterrorizavam “tinham um prazer sádico” no que faziam. E assim parece segundo os autos do processo.
Em uma das trocas de e-mail entre CEO Devin Wenig e o chefe de Comunicação Steve Wymer, o diálogo parece saído dos Sopranos. Meia hora depois da publicação de uma nota no site em que Ina relata um processo da eBay contra a Amazon, o CEO envia uma mensagem a Wymer: “Se você for derrubar essa mulher, o momento é agora”. Wymer então responde que já está cuidando do assunto e envia uma mensagem para James Baugh, chefe da divisão de Segurança Global e Resiliência da eBay: “O ódio é pecado, e eu sou bastante pecador”. A frase tinha um peso especial, já que o pecador é filho e neto de pastores batistas. O chefe de Segurança concordou, e Wymer respondeu: “Amém. Eu quero que ela seja terminada. Ela é uma provocadora tendenciosa que precisa ser destruída”.
É chocante ver como funcionários que até então provavelmente nunca tinham feito mal a ninguém foram sendo conduzidos –sem pressão material, ameaça de demissão ou ordem direta– a se transformar em torturadores de duas pessoas inocentes. Segundo relato do Boston Globe também baseado nos autos do processo, o casal Steiner não recebeu só ameaças digitais, atenuadas pela distância coberta por e-mails e mensagens em redes sociais.
Em 10 de agosto, o casal recebeu uma encomenda que nunca haviam pedido: uma máscara que imitava um porco ensanguentado, como mostra a imagem no início do artigo, da perícia do FBI. Dois dias depois, o marido recebeu um livro enviado via Amazon: “Diários da Dor: Sobrevivendo à Perda de um Esposo”. Dois dias mais tarde, outros pacotes foram enviados à casa dos Steiners: uma caixa com larvas e aranhas vivas e outra com baratas. Uma coroa de flores também foi enviada por meio de um florista local.
Funcionários da eBay viajaram à cidade do casal para tentar instalar um GPS no carro das vítimas. Revistas pornográficas com moças jovens no limiar da idade legal foram enviadas às casas de vizinhos dos Steiners, com o nome de David no campo do destinatário.
Os altos executivos envolvidos no caso acabaram ilesos, ou premiados. Wenig foi reeleito para a cadeira que ocupava no conselho da General Motors, e Wymer foi nomeado CEO do Boys & Girls of Silicon Valley, uma organização sem fins lucrativos que tem a missão de “inspirar e empoderar jovens […] a realizar seu potencial como adultos produtivos, responsáveis e solidários”.
Dos funcionários que se sujeitaram a algo tão imoral, sórdido e degradante, só uma falou com o New York Times e mostrou arrependimento: Veronica Zea, que se declarou culpada no tribunal pelo que fez na empresa aos 23 anos de idade. “É fácil dizer ‘Por que eu não fui embora?’ Mas naquele momento, eu estava apavorada e paralisada. Eu sinto tanto pelo que eu fiz”.
Em outro momento, Veronica diz: “Eu não sei quando vou conseguir confiar num patrão novamente –ou quando outro patrão vai confiar em mim”. É aí que eu acho que Veronica pode ficar tranquila: não falta emprego para pessoas que passam nesse tipo de teste.





























